Yoro: a cidade da chuva de peixes
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Yoro: a cidade da chuva de peixes

A lenda mágica e misteriosa na lembrança de um jornalista de Honduras que até hoje sonha em ver os peixes caírem do céu

em 09/08/2017 • 09h30
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Foi no início de 1998. Havia conhecido a casa de um poeta. Era uma casa aparentemente pequena, de eterna cor branca. Tinha uma pequena janela e uma porta simples de madeira quase sempre fechada. Ficava nas proximidades de uma delegacia e diante de uma velha rodoviária, na mesma rua por onde se chegava ao campo de futebol La Lomita, no bairro Santiago e também ao Bording House Palmeiras, um dos hotéis mais antigos da cidade.

Era a casa de Roberto Sosa (1930-2011), o mais universal dos poetas hondurenhos.

Eu era um garoto, e pela primeira vez o mundo me havia sido revelado inusitadamente. Não era a primeira vez que ouvia falar do poeta. Havia escutado seus versos recitados por um homem do qual me recordo vagamente, mas que por alguma razão me impressionara ˗ ainda que não o compreendesse ˗ por suas palavras e gestos. Se chamava Daniel Cano Andrade. Era um grande poeta yorenho, como soube anos depois.

Essas lembranças me dão a certeza de que Yoro é mágica. Não só por sua poesia, mas também pelo cenário maravilhoso e surrealista que rodeia a sua história. Uma cidade com tradições e mitos, cujo nome, traduzido da língua Tol, significa 'o centro do coração'.

Aconteceu em um 3 de maio de 1998. Era dia da Paixão de Cristo, e numa casa cristã como a nossa, duas coisas se sabia nessa data: haveria uma pequena cruz de madeira na porta de entrada, e choveria.

Nesse dia escutei ˗ quase incrédulo ˗ que por aqueles dias, em qualquer tarde chuvosa, cairia sobre a cidade uma chuva de peixes. E ainda que não compreendesse nada, a ideia de ver cair peixes do céu tomou conta de meus pensamentos.

Imaginar uma chuva em que cairia peixes ao invés de água me fez pensar nas ruas sem poças, e que os tetos das casas de todos os moradores, assim  como suas ruas, estariam repletas de peixes que saltariam inquietos por todos os lados.

Minha casa se encheria de peixes brincalhões.

O inverno chegou com grande força em todo o país. Os festejos populares haviam começado. Todos se preparavam para a celebração anual em homenagem ao Apóstolo Santiago, que duraria semanas. A esperada chuva de peixes ocorreria durante os festejos.

A cidade se transformava totalmente. As ruas principais eram decoradas e se instalava um grande parque de diversões. Vendedores ambulantes vinham de quase todo o país, carroças eram enfeitadas e aconteciam desfiles, carnavais e festas.

Só se esperava os peixes caindo com as chuvas.

Não aconteceu assim. Quando menos se esperava ˗ enquanto eu acompanhava o desfile colorido de carros alegóricos pela avenida 25 de julho,  contagiado pela música, tambores, as cores e a alegria das pessoas ˗ começou a cair uma chuva com gotas minúsculas que foram se transformando num aguaceiro.

A chuva chegou, mas não os peixes. Dias depois, ouvi Carlitos Martinez dizer no noticiário da manhã transmitido pela Rádio Yoro que naquele ano a chuva de peixes havia caído no povoado vizinho de Centro Poblado, a uns dez minutos da cidade, e que os moradores e fazendeiros da região haviam recolhido uma quantidade imensa de peixes pequenos e prateados, mais parecidos com uma sardinha do que com qualquer outro peixe, porém muito mais resplandescentes e bonitos.

Apesar disso, nunca perdi a esperança de ver a chuva de peixes com meus próprios olhos.

Lembro que fui um menino feliz, mesmo num país tomado pela corrupção, depressão econômica, dívida pública e com toda a devastação deixada pelo furacão Mitch, a maior tragédia da natureza de nossa história.

Nós éramos los niños del Mitch. Ríamos ingênuos porque as chuvas leves porém persistentes provocadas pelo furacão haviam feito com que o recente governo liberal de Carlos Flores Facussé (presidente de Honduras no período 1998-2002) decretasse o fechamento de todas as instituições de ensino do país até um novo aviso.

No final do ano nós demos mais  risadas, pois, devido aos danos humanos, materiais e econômicos que as chuvas haviam deixado, em novembro de 1998, quando voltamos para a Escola Daniel Quiróz GuíaTécnica N°11, nossa professora, Teresa Licona, nos informou que devido à difícil situação que o país atravessava, todos os alunos  haviam sido aprovados em seus cursos.

Nunca fomos mais felizes do que com aquela notícia, para não dizer que nunca fomos tão ingênuos. O país havia sofrido o indizível. O furacão havia destruído pontes, estradas, casas, edifícios, escolas e hospitais.  Havia limitado a energia elétrica e o acesso aos telefones, e havia arrasado mais de 80% da produção agropecuária nacional. Havia deixado mais de 11 mil mortos e quase dois  milhões de vítimas em um país com 6 milhões de habitantes.

Tudo aquilo transformou minha ideia sobre a chuva de peixes, mas não a minha ilusão de vê-la algum dia. Até hoje espero realizá-la.

Quase duas décadas depois, o dr. Ramon Rivera, professor de História Social e Cultural da Universidade Nacional Autônoma de Honduras, ensina como o fenômeno da chuva de peixes em Yoro pode ser explicado cientificamente através da teoria das Trombas Marinhas exposta pelo físico francês André-Marie Ampère (1775-1836) e outros estudiosos, incluindo ele mesmo.

Ainda assim, prefiro recordar os dias felizes desse idílico mundo da infância, quando a vida parecia boa, minha casa ficava em uma cidade cheia de histórias e lendas fabulosas, e chovia peixes junto à água que vinha do céu.

Tudo isso se passou ali, na mágica Yoro.

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