William Wack não é uma maça podre
Análise

William Waack não é uma maçã podre

Meios de comunicação têm mais Waacks do que Majus: só 22% dos jornalistas com empregos formais no país são negros, segundo levantamento de 2015

em 19/11/2017 • 14h00
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O Brasil é um país racista. Por mais forte que seja a sentença e por mais difícil que seja aceitá-la essa é uma realidade presente em todas as estruturas da sociedade brasileira. A maneira de discriminar os negros é distinta de outros países, onde a segregação é mais escancarada. Olhares, piadas e não inclusão dessa população no acesso a questões básicas como empregos são frequentes.

O jornalismo é um retrato dessa estrutura. Os veículos são geridos por empresários brancos, que contratam diretores de redação brancos que admitem funcionários na maior parte brancos. Nesse organograma, há poucos funcionários negros. Em 2015, só 19,6 mil (22,3%) dos 87,6 mil jornalistas com empregos formais no país eram negros, de acordo com dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Os números são comprovados na prática. Nas redações em que passamos, nos acostumamos a sermos os únicos negros, acompanhados vez ou outro por mais algum colega. Nesses locais, nunca tivemos chefes negro/as.

É nesse contexto que profissionais com a apresentadora do tempo da TV Globo Maria Julia Coutinho figuram. Ela já sofreu injúria racial na internet e gerou uma campanha de apoio “Somos todos Maju”. Maju é uma das poucas negras que aparecem no vídeo da Globo. Já o seu colega de emissora William Waack foi pego em flagrante sendo racista. Em vídeo divulgado em 8 de novembro ele aparece dizendo “é coisa de preto” para um barulho de buzina que vinha de trás da gravação que estava prestes a iniciar. As justificativas foram muitas: o jornalista não se lembra; era piada; ele não podia ser responsabilizado pelo que disse no “campo privado”. O fato é que dessa vez a TV Globo agiu rápido e decidiu afastá-lo da apresentação.

As declarações de Waack ferem a Constituição, o Código de Ética dos Jornalistas, que em um dos seus artigos diz que é dever do jornalista combater práticas de perseguição ou discriminação por motivos raciais, políticos, sociais, entre outros e os preceitos da emissora que se diz comprometida em combater a discriminação racial e outras desigualdades.

Para além da punição a Waack, o caso leva para dentro das empresas de comunicação – para as redações – um debate urgente e necessário.

Waack não é uma maçã podre. Ele apenas reproduziu o que há de mais tacanho e perverso na nossa sociedade. A exemplo dele existem inúmeras pessoas que pensam e moldam as notícias que assistimos.

Decidem o que é ou não notícia, escolhem quem é ou não uma fonte qualificada para repercutir um caso, têm um lado sempre, mesmo quando silenciar sobre determinado assunto.

A via da invisibilidade, aliás, esse não-lugar e o ser branco como modelo universal de humanidade é uma das formas de tratamento dado ao negro no jornalismo brasileiro. A hierarquização das pessoas está presente dia após dia no noticiário. Cida Bento, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo, em seus estudos sobre branquitude e branqueamento acredita que existe um olhar branco sob o negro, uma projeção branca sobre o ser negro e ela é “nascida do medo, cercada de silêncio, fiel guardião dos privilégios”. O silêncio da mídia sobre o racismo presente na construção das notícias é ensurdecedor. Até mesmo em casos como o de Waack vem à tona, a discussão parte do princípio da ação individual, e não retratam o racismo na mídia como algo estrutural. Pautas como o genocídio da juventude negra são minimizados e, na maior parte das vezes, os negros são tratados como culpados e não como vítimas nos casos de violência.

Será que comunicadores com pensamentos machistas, racistas, homofóbicos e transfóbicos devem ter espaço para propagar seu discurso de ódio? Será que conseguem produzir jornalismo isento dessas posições pessoais?

Será que um homem como Waack – que foi afastado não por ser racista (mas por ser pego sendo racista) – deve continuar comunicando para um país com 54% da sua população negra?

A luta pela democratização da imprensa e as novas vozes que tentam dar espaço e contrabalancear o que é dito na grande mídia é crescente. Para além desta Calle2, que você lê, destacamos o Blogueiras Negras, Nós, Mulheres da Periferia, Justificando, Alma Preta, Carta Capital, Periferia Em Movimento, Brasil de Fato, Revista Fórum, Repórter Brasil, Ponte Jornalismo, Nexo, Mural – Agência de Jornalismo das Periferias, AzMina, A Pública,  entre outros. São iniciativas importantes para dar outras tonalidades para as narrativas e histórias que contamos.

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