Você quer mesmo fugir para o Uruguai?
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Vamos fugir para o Uruguai?

Conversamos com brasileiros para saber como é viver no país considerado o ‘mais moderno’ da América do Sul

em 12/07/2017 • 11h55
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A cada escândalo de corrupção, novas evidências contra políticos brasileiros e mais decepções com a situação social e econômica do país, surge a brincadeira: “Vamos fugir para o Uruguai?”. Como toda brincadeira tem um fundo de verdade, ultimamente muitos brasileiros estão buscando refúgio no país vizinho para escapar da crise nacional, aprofundada desde 2014.

Pesquisa Datafolha divulgada no dia 24 de junho revelou que 47% da população têm vergonha de ser brasileiro − maior índice registrado desde o início da série histórica, em março de 2000.

A vergonha aumenta, e também aumenta o número de brasileiros que deixam definitivamente o país. Reportagem do jornal O Estado de S.Paulo revela que, entre 2014 e 2016, 55.402 brasileiros entregaram à Receita Federal uma ‘declaração de saída definitiva’ do país, aumento de 81% (na comparação com o biênio anterior). O número pode ser maior, já que nem todos entregam essa declaração à Receita.

“Um fator que tem levado alguns para fora do Brasil é a perda da esperança, sobretudo no que se refere às questões políticas. Nos jornais só se fala nisso: corrupção, Lava Jato, saque aos cofres púbicos, etc.”, lamenta o geógrafo Eder Diego, um conhecedor do fenômeno imigratório.

O Consulado brasileiro no Uruguai estima que cerca de 350 mil brasileiros visitam o país a cada ano e ao menos 8 mil vivem lá atualmente. O número deve aumentar depois que foi firmado acordo, nesta semana, que permite que brasileiros e uruguaios tenham visto permanente sem a exigência de empo prévio de residência temporária.

Nos últimos anos, o Uruguai se posicionou na região como um porto seguro para estrangeiros, especialmente depois do mandato do presidente Pepe Mujica (2010-2015) e da exposição internacional que o país ganhou nesse período. Mas, será que esse paisito com cerca de 3,5 milhões de habitantes é realmente o paraíso liberal que muitos imaginam?

Se você está esperando que o país da legalização da maconha e do aborto seja 100% liberal, cuidado. Embora tenha políticas progressistas, o Uruguai também enfrenta problemas conhecidos dos brasileiros, como a burocracia das instituições públicas.

Em poucos meses vivendo no Uruguai, os brasileiros se dão conta de que muito da imagem do país tem uma embalagem romantizada. Afinal, o Uruguai não é o “paraíso progressista da América” que muita gente acredita, comenta Gustavo Clemente, 29 anos. Assim como ele, a brasileira Adriana Schuh, 40 anos, também critica a visão pouco realista que muitas pessoas têm. “A gente pensa que o país é avançado e, de repente, ao chegarmos aqui, encontramos uma crise profunda na educação, com atrasos importantes no desenvolvimento da medicina, um arcaico sistema de burocracia nos setores públicos e privados e um crescente aumento da violência”, diz ela.

Segundo os entrevistados, nosso vizinho vive em uma dicotomia. Por um lado, há um esforço para discutir temas progressistas, como a legalização da maconha e a descriminalização do aborto. Mas, por outro lado, uma sociedade bastante conservadora reluta a essas mudanças e a implementação de ditas leis não acontece da maneira como se espera.

Mônica Zanocchi, empreendedora carioca que vive no Uruguai há 12 anos, diz que nesse tempo pode observar a fama progressista que se construiu ao redor do país. Hoje, Mônica se sente satisfeita com a vida que ela e sua família levam, mas também critica a ideia de que no Uruguai tudo é super liberal. Ela utiliza a iniciativa mais conhecida nos últimos anos, a legalização da maconha, para expor a burocracia e a falta de incorporação dos ideais progressistas por parte do país.

“Fazem cinco anos que se aprovou a lei, mas muitas coisas não estão operativas ainda. Aí o pessoal vem pro Uruguai pensando que vai entrar num coffee shop e comprar maconha, e não é assim. Criou-se uma narrativa que é um telefone sem fio. As pessoas não se informam bem antes de vir, chegam aqui e a história é outra”, afirma.

Limitado número de oportunidades de trabalho

Alguns dos principais obstáculos para a adaptação dos brasileiros no Uruguai são o alto custo de vida do país e o limitado número de oportunidades de trabalho em algumas áreas.

Há quase um ano em Montevidéu, o paulistano Gustavo Clemente trabalha em uma empresa de software na capital uruguaia. O país é um polo tecnológico na América Latina e já se tornou uma referência no desenvolvimento de software a nível regional. Isso significa que existem muitas oportunidades para engenheiros e programadores, como foi o caso de Gustavo. Embora satisfeito com a tranquilidade e serviços básicos do país, ele confessa que o custo de vida é bastante salgado.

'Quando eu vou para o Brasil dá vontade de trazer tudo. Aqui é caro. São Paulo já é cara, mas aqui é mais ainda', afirma Gustavo.

Encontrar um emprego em sua área também não é das tarefas mais fáceis. Depois de terminarem a universidade, a jornalista Mariana Duré, 24 anos, e a psicóloga Gabriela Carvalho, 25 anos, sentiram que não havia muito espaço no mercado de trabalho em São Paulo para duas recém-formadas. Chegaram à conclusão que uma mudança de paisagem seria bem-vinda e o destino foi o Uruguai, onde vivem há pouco mais de um ano.

As duas contam que não conseguiram encontrar empregos em suas profissões e tiveram que adaptar-se a um novo estilo de vida. “Não sobra muito, você tem que viver com tudo contado. E também se readaptar ao valor do dinheiro, que é outra luta porque está acostumada ao real e quando você converte, não é a mesma coisa”, explica Mariana.

Hoje, ambas trabalham no call center de uma empresa que valoriza o conhecimento do português. Ambas esperam desenvolver mais o espanhol para seguir buscando novas oportunidades em suas carreiras.

Brasileiros estranham frio e perfil ‘reservado’ do uruguaio

Embora seja um país de clima temperado, a temperatura pode assustar brasileiros. No inverno, as temperaturas médias variam entre 14º C e 6º C. Porém, existem noites de junho, julho ou agosto que facilmente chegam a temperaturas abaixo de zero. Os ventos gelados contribuem para uma sensação térmica ainda menor.

'Eu nunca havia experimentado viver no frio, sentir frio realmente. Não é fácil', conta Karla Garcia, 25 anos, natural de Campo Grande (MS), onde a temperatura costuma variar entre 28º C e 14ºC nos meses de inverno. A jovem se mudou para Montevidéu há quase um ano graças a uma oportunidade de trabalho.

Outra brasileira que vive na capital uruguaia é a estudante Laura Bouchacourt, 19 anos. Ela confirma que durante as estações mais frias, a temperatura gelada é um desafio até mesmo para ela, que é de Santana do Livramento (RS), com temperatura máxima de 16ºC e a mínima de 7ºC entre junho e agosto. “Não dá vontade de sair da cama, o inverno é mega depressivo”, brinca.

Outra diferença em relação ao Brasil está no aspecto cultural. Acostumados à personalidade normalmente mais extrovertida e aberta, alguns brasileiros têm dificuldade em acostumar-se ao perfil mais reservado do uruguaio. A publicitária Renata Soares, 43 anos, vive no Uruguai há 13 anos e diz que se sentiu bem recebida no país, mas que a sociedade em geral tem uma maneira de ser bastante distinta ao que estamos acostumados. “O uruguaio é mais fechado, reservado, conservador e não gosta de mudar os seus costumes. Um exemplo é que todo brasileiro que vem tenta abrir algo que aqui não tem. Tipo comida brasileira, vender cerveja na praia. Não funciona”.

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