Uma noite de 12 anos
Cultura

Uma noite de 12 anos

Filme narra encarceramento do ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica na época da ditadura

em 11/10/2018 • 12h29
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A dura experiência de encarceramento vivida pelo ex-presidente do Uruguai José Alberto Mujica (Antonio de la Torre), Mauricio Rosencof (Chino Darín) e Eleuterio Fernández Huidobro (Alfonso Tort), na época, três guerrilheiros tupamaros presos pela ditadura militar uruguaia (1973-1985), se transformou no filme Uma noite de 12 anos, co-produção entre Argentina, Uruguai e Espanha. O filme foi uma das sensações do Festival de Veneza, realizada no início de setembro e que contou com a presença do próprio ex-presidente uruguaio Pepe Mujica. Lá, foi exibido também o documentário El Pepe, una vida suprema (ainda sem previsão de estreia no Brasil), dirigido pelo sérvio Emir Kusturica.

Uma noite de 12 anos tem em seu elenco artistas conhecidos do público brasileiro, como César Troncoso, Soledad Villamil e Chino Darín. A direção é de Álvaro Brechner, o mesmo de Sr. Kaplan (2014), comédia em que um senhor judeu inicia uma investigação por conta própria após se convencer que um de seus vizinhos é um nazista escondido no Uruguai.

Em seu novo filme, Brechner construiu uma atmosfera totalmente diferente da anterior, mudando da comédia para a tensão de uma narrativa asfixiante. O diretor começou a elaborar o projeto em 2011. E as filmagens foram duras, enfrentando, por exemplo, temperaturas baixíssimas nas cenas rodadas na Espanha. Além disso, os três atores principais precisaram emagrecer muito para trazer mais veracidade aos personagens.

Desde o início, o que mais chama a atenção em Uma noite de 12 anos é a opção em se desviar do típico thriller de enredo político, estilo consagrado em muitos filmes da América Latina que revisitam o período de repressão. Aqui, o foco principal é o drama psicológico dos três prisioneiros submetidos à privação total de direitos enquanto foram mantidos reféns do regime militar.

Entre as práticas terríveis e desumanas, foram proibidos de falar entre si e com guardas das prisões por onde passaram. As condições de higiene eram precárias, negava-se comida, banho, e, em casos extremos, as “acomodações” sequer tinham as condições mínimas necessárias para abrigar um detento, parecendo-se mais com masmorras medievais.

O mérito da direção é transferir ao espectador este clima claustrofóbico e, ao mesmo tempo, permitir algum espaço para a esperança e a resistência, em cenas de aberto lirismo ou em flashbacks nos quais os personagens encontram alívio temporário para a angústia sofrida dentro do cárcere, lembrando que há vida “lá fora”. Ao fazer esta opção, o enredo enfatiza os dramas humanos, dedicando menos atenção aos fatos históricos, apenas sugeridos.

Vale comentar o trabalho do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ou CICR – Comité Internacional de la Cruz Roja, em espanhol), mencionado no filme, que, em 1980, inspecionou as condições de detenção de prisioneiros políticos. Em uma cena, soldados disfarçam as celas com móveis, espelhos, máquinas de escrever e “até” escovas de dentes (!), visando dar a aparência de um tratamento digno. Assim que a comissão termina seus trabalhos, todos os objetos são recolhidos e as condições do cárcere voltam a ser o que eram.

Há também uma cena rápida que menciona (pelo rádio) o plebiscito constitucional de 1980, convocado pelo governo para legitimar o processo ditatorial em curso. De forma surpreendente, o povo uruguaio deu seu recado e negou o projeto com cerca de 57% dos votos. Ainda assim, demoraria mais cinco anos para a ditadura chegar ao fim.

No enredo, assim que a vitória do “NO” é confirmada, soldados entram nas celas e espancam os três prisioneiros, que, vulneráveis e alienados em relação ao que acontece fora da prisão, sequer entendem a razão da agressão. Mesmo sem o detalhamento histórico (o que pode decepcionar os que esperam uma abordagem mais específica), a vontade de denúncia de Uma noite de 12 anos é eficaz justamente por se concentrar no drama dos encarcerados, aproximando o espectador de hoje a um passado ainda recente e que sempre volta a assombrar as frágeis democracias latino-americanas.

Isso não significa que o filme se desvie dos fatos históricos. Ao contrário, o roteiro tem como ponto de partida o livro Memorias del calabozo, de autoria dos próprios Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro, publicado originalmente no fim da década de 1980. Além disso, foram anos de pesquisa e entrevistas com diversas pessoas para trazer a devida substância ao relato.

De forma análoga, vale lembrar outros filmes baseados em fontes literárias e que narram o sombrio período de repressão das ditaduras militares na América Latina, como, por exemplo, o argentino Crônica de uma fuga (2006), de Adrián Caetano, o brasileiro Batismo de Sangue (2006), de Helvecion Ratton, e o chileno Dawson Ilha 10 (2009), de Miguel Littín.

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