Três histórias de superação de jogadores latinos na Copa
Esporte

Três histórias de superação de jogadores latinos na Copa

Cuadrado, Agüero e Herrera são apenas três exemplos de um destino comum dos futebolistas da América Latina: a saída da pobreza ou da violência

em 28/06/2018 • 14h04
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Na América Latina, o futebol é mais do que um mero esporte. O filósofo colombiano Jesús Martín-Barbero, por exemplo, afirma no livro De los medios a las mediaciones que ele, assim como o bolero, foi responsável por dar um aspecto popular às tradições que, depois, se tornariam marcas nacionais.

Buenos Aires, na Argentina, é a cidade com mais estádios de futebol do mundo, e recentemente o governo municipal criou um tour que percorre os bairros onde eles estão erguidos. Para as autoridades turísticas argentinas, um dos fatores que determinam o volume de vendas de passagens aéreas para a capital portenha é justamente os seus famosos clubes.

No Brasil, a vida de uma pessoa pode ser contada a partir das Copas que ela viveu. No México e na Colômbia, o time do coração de alguém é quase com um signo. No Chile, o Estado decreta feriado a cada jogo da seleção nacional, e o Estádio Nacional, em Santiago, ajuda a contar a biografia do país.

Há, porém, algo em comum entre todos os países latino-americanos e o futebol: numa das regiões mais socialmente desigual do mundo, além de registrar altos índices de violência e sofrer com questões como o racismo, é o esporte que permite que histórias de superação sejam contadas com frequência.

A do centroavante Gabriel Jesus, da seleção brasileira, é uma das que foram relatadas à exaustão antes da Copa da Rússia no último Mundial, em 2014, há fotos dele pintando a rua de sua casa, no Jardim Peri, periferia de São Paulo, para os jogos. Hoje é titular do time de Tite.

A Calle2 conta a seguir outras três histórias de jogadores latino-americanos cujas seleções estão nas oitavas de final do torneio disputado na Rússia.

Juan Guillermo Cuadrado – Colômbia

Quando escutou o barulho dos disparos vindos das rua, Juan Guillermo se escondeu debaixo da sua cama. Era a ordem que seus pais lhe haviam dado desde sempre caso a casa em que viviam em Necoclí, no departamento de Antioquia, a 795 quilômetros de Bogotá, fosse atingida por tiros. Ele tinha quatro anos.

No início dos anos 1990, a pequena cidade estava no mapa dos conflitos entre paramilitares, narcotraficantes e as Forças Armadas colombianas: era próxima ao Panamá e se situava nas margens do Mar do Caribe, uma das principais rotas de ligação entre a América do Sul e os Estados Unidos.

Aquela noite nunca mais foi esquecida por Juan Guillermo: ao sair do esconderijo improvisado, a primeira cena que viu foi seu pai, Guillermo Cuadrado, ensanguentado no chão da sala. Ele estava morto.

Foi a mãe de Juan Guillermo, Marcela Bello, que assumiu a responsabilidade: com o salário que ganhava empacotando bananas na companhia da cidade de Apartadó, a 70 quilômetros de casa. Ela pagava as contas e a mensalidade de uma escolinha de futebol em Necoclí para o menino – seu único filho. Anos depois, ela mudou de vez para Apartadó, quando passou a administrar uma sorveteria no município, deixando Juan Guillermo na casa da avó, em Necoclí, para poder continuar treinando na mesma escolinha. Somente aos seis anos, quando foi jogar em um clube de Apartadó, é que pode voltar a viver com a mãe.

Aos 12 anos, Marcela precisou tomar uma das decisões mais difíceis desde a morte do marido: autorizou o filho a se mudar para o Valle do Cauca, a 720 quilômetros de Apartadó, para seguir no esporte: Nelson Gallego, coordenador das divisões de base do Deportivo Cali, um dos maiores times de futebol da Colômbia, havia convidado o garoto para jogar no clube. Ele fora visto por um olheiro em uma partida pelo Atlántico, no Toreno Asefal, campeonato amador em Barranquilla, semanas antes.

Foi o início definitivo da carreira futebolística: disputou a segunda divisão pelo Deportivo Rionegro em 2007, mas chamou  a atenção do Independiente Medellín, clube onde atuou por quase dois anos. Em julho de 2009, enfim, foi contratado pela Udinese, da Itália. No país europeu, ele ainda jogaria pelo Lecce e pela Fiorentina.

A Copa no Brasil, porém, mudou sua vida: titular da seleção colombiana que encantou o mundo e terminou o Mundial na quinta posição, ele fez um gol e deu cinco assistências. Um ano depois, assinou o maior contrato da sua vida com o Chelsea, da Inglaterra, que o emprestou à Juventus, da Itália, meses depois. “Sempre recordo a primeira vez que ele me ligou e disse: ‘Mãe, fui convocado para a seleção da Colômbia’. Foi uma emoção imensa”, contou Marcela Bello em 2014 ao jornal espanhol AS.

Sempre que faz gols, Cuadrado levanta os dois braços para o céu e depois olha para o céu. Diz que está comemorando com o pai.

Sergio “Kun” Agüero – Argentina

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“Vivíamos com três euros por dia”, contou o atacante argentino Agüero, do Manchester City, da Inglaterra, ao jornal espanhol AS, em 2006. À época, aos 17 anos, ele havia acabado de assinar seu primeiro contrato com um grande clube europeu: o Atlético de Madrid, que pagou 23 milhões de euros pelos seus direitos. É até hoje a transação mais cara da história do futebol argentino.

Agüero nasceu na cidade de Villa Itatí, uma região pobre de Quilmes, em Buenos Aires, cuja população é inferior a 60 mil pessoas – apenas 20% delas tinha um trabalho fixo no início dos anos 2000. “Eu jogava futebol descalço na rua”, contou Agüero a outro periódico espanhol, o 20 minutos. Seus pais vieram de Tucumán, província a mais de mil quilômetros de distância de Buenos Aires, em busca de melhores condições de vida, mas não tiveram êxito: quando o menino nasceu, Leonel, seu pai, trabalhava como motorista e sua mãe, Adriana – de quem herdou o sobrenome – era doméstica.

Quando criança, Sergio já era treinado em um pasto ao lado de sua casa por Leonel, que também havia tentado, sem sucesso, a carreira de jogador. Foi nessa época que surgiu o famoso apelido do hoje atacante da seleção argentina: o pai tinha juntado dinheiro para comprar uma pequena televisão de 14 polegadas e, mesmo com uma antena improvisada com uma esponja de aço, o único canal que funcionava transmitia o desenho japonês “Wanpaku O’Mukashi Kumu Kumu”, sobre uma família que vivia na Idade da Pedra. O pai diz que as poucas palavras que o garoto conseguia repetir era “kum”.

A família de Agüero morava em Florencio Varela, na província de Buenos Aires, a 27 quilômetros da capital, quando ele foi descoberto pelo jornalista Eduardo Motoneta, cuja ajuda foi fundamental para que fosse contratado pelo Independiente, o maior vencedor da Copa Libertadores da América, com sete conquistas, para jogar nas suas categorias de base. Ele tinha apenas oito anos.

“Quem descobriu Agüero foi seu próprio pai. Ele que me convenceu a ver seu filho jogando”, recordou Motoneta ao site Juan Futból. O clube argentino foi importante não apenas para o jogador, mas para sua família: além de assinar contrato com o garoto, o Independiente ainda contratou seu pai para trabalhar como roupeiro. À época ele estava desempregado e cogitava se mudar com os filhos e a esposa para Tucumán. Se o traslado se efetivasse, Agüero não poderia jogar nos “Diablos Rojos”.

Com o dinheiro da venda dele para o Atlético de Madrid, o Independiente praticamente reconstruiu seu estádio, rebatizado de “Libertadores da América” e reinaugurado em 2009. “Kun” Agüero também seguiu fazendo sucesso: em 2011 foi contratado pelo Manchester City, clube do qual já é considerado ídolo. Apesar da má fase da seleção argentina, que suou para passar da fase de grupos do Mundial da Rússia, é uma das esperanças do país em busca do tri.

Héctor Miguel Herrera – México

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A rua Ébano, em Rosarito, no estado de Baja California, no México, é uma das poucas vias que conectam a cidade à praia. Por ali transitam diariamente jovens em direção ao mar para a prática da pesca esportiva ou carregando pranchas de surf para vencer as ondas do Oceano Pacífico. Foi nesse contexto, em 1990, que nasceu Héctor Miguel Herrera, meia titular da seleção mexicana na Copa da Rússia deste ano e um dos principais jogadores do Porto, de Portugal.

No Pachuca, onde ficou conhecido, dizem que é preciso aprender a sofrer antes de se tornar um jogador de futebol. Isso explica o início errante de Herrera: antes de estrear no time, um dos grandes do país, ele teve que rodar o território nacional atuando por times pequenos, como o Venados de la Magdalena Contreras e o Arroceros de Cuautla, da terceira divisão local, e o Tampico Madero, da segunda o clube funciona como uma filial do próprio Pachuca.

“Vi Herrera quando ele tinha 11 anos, mas só quando completou 14 é que consegui levá-lo para a Cidade do México, e ainda para jogar pelo Guadalajara, da quarta divisão”, contou ao jornal Excelsior o treinador Ángel “Coca” González, que descobriu o meia e lhe deu o apelido pelo qual é conhecido no México: “El Zorro”, por causa de uma franja descolorida de cabelo sobre a testa.

Foi nessa época que Herrera, precisando ajudar a família pobre em Rosarito, mas recebendo poucos e atrasados salários, considerou empreender um projeto que muitos colegas de infância tornavam realidade à época: cruzar o rio Bravo para entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Lá, dizia ele, poderia trabalhar na construção civil.

O técnico mexicano Efrain Flores, que dirigia o Pachuca à época da chegada de Herrera ao Tampico Madero contou recentemente que o jogador quase desistiu do futebol. “Eu o chamei e lhe perguntei: ‘Quantos anos você tem?’. Ele me respondeu: ‘Tenho 21 e estou desesperado. Sou da Baja Califórnia, minha família quer que eu volte e eu mesmo já estou cansado. Essa é minha última oportunidade”, disse no programa Sin Derechos, da TV mexicana.

As coisas, porém, aconteceram rápido: em 2011 estreou com a camisa do time profissional do Pachuca e, 14 jogos depois, era premiado como a revelação do Apertura daquele ano. Em 2012, foi convocado para defender a seleção mexicana nas Olimpíadas de Londres, na Inglaterra, de onde sairia com a medalha de ouro. Ele foi titular nos 90 minutos na fatídica partida em que o Brasil perdeu de 2 a 1.

A campanha lhe rendeu, enfim, a coroação na carreira: o Porto pagou 8 milhões de euros ao Pachuca por 80% dos seus direitos federativos em 2013. Dois anos depois, era eleito o melhor jogador do time no Campeonato Português e via seu passe ser fixado em 40 milhões de euros. Na Rússia, ele segue dono do meio-campo da seleção de seu país que vai tentar ficar entre os seis melhores do mundo, assim como foi em 1970 e em 1986 e para isso precisa passar pelo Brasil nas oitavas de final.

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