Simplesmente Suplicy
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Simplesmente Suplicy

Planos, batalhas e utopias de um político em extinção, que doa seu salário, visita moradores sem teto e é considerado um símbolo de honestidade em tempos de Lava Jato

em 04/05/2016 • 01h00
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É sábado, 19 de março. Eduardo Suplicy e uma equipe de coordenadores da Secretaria de Direitos Humanos de São Paulo chegam quase meia hora atrasados para a reunião marcada para começar às 14h30 sob o viaduto Bresser, no centro da capital paulista. O sol está estralando. Uma espécie de roda de conversa é improvisada com um banco de madeira e três cadeiras cedidas por moradores da comunidade, como eles próprios gostam de chamar. Padre Julio Lancellote − conhecido pela defesa da população que vive na rua − e cerca de 15 moradores estão presentes. Três ou quatro se manifestavam vez ou outra, questionando sobre despejo, auxílio-aluguel, moradia. Os barracos em que vivem hoje têm data certa para deixar de existir: 15 de maio.

A proximidade com a realidade assusta. Têm crianças, adolescentes, pessoas idosas, mulheres, homens. Todos sem destino, sem paradeiro. O corre-corre dos pequenos, a menina que puxa uma linha amarrada a um carrinho de plástico azul, em nada colaboram para manter o ambiente menos pesado. O chão de barro torna o cenário mais sofrível, porque ele é seco e não tem vida. Os barracos berram o desespero que essa gente vive.

Cabisbaixo, com olhar que também parece pedir ajuda, Suplicy resgata toda a novela dos moradores do viaduto Bresser, desde o cadastramento já realizado para o recebimento do auxílio-aluguel, dos encaminhamentos tirados na audiência pública, até as possíveis alternativas. Também faz ligações para pegar informações, passar instruções sobre o caso e agendar novas reuniões para discutir a situação dos moradores. É interrompido constantemente pelas pessoas que têm fome de soluções.

Suplicy é sensível às adversidades da vida. Quando criança já buscava o que existia além dos muros da casa dos Matarazzo. Sim, Eduardo também é um Matarazzo, uma das famílias mais tradicionais de São Paulo, ligada diretamente ao processo de industrialização do Brasil. Apesar de ter nascido em berço esplêndido, desde menino, e, sobretudo na adolescência, sentia um desejo muito grande de descobrir a verdade e a razão das coisas.

O que inquietava o menino era que, de dia, via trabalhadores em sua luta pela sobrevivência, mendigos estendendo as mãos, crianças perambulando nas ruas. À noite, ouvia os gritos das prostitutas no parque Siqueira Campos, quando vinha a polícia dar uma batida. É que aquela realidade em nada se parecia com a do menino.

O que ele não imaginava é que mais tarde iria se embrenhar por inteiro neste universo. Seja como o pai da Renda Básica de Cidadania, que inspirou o PT a criar o Bolsa Família, seja como o secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo que tem o cuidado de conversar com moradores de rua sob um viaduto.

Sexta-feira, 29 de abril, Suplicy está no escritório de sua casa, onde duas paredes são forradas de estantes repletas de livros − destaque para os de economia e títulos de Karl Marx. Sobre a mesa está a obra “Utopia”, de Thomas More. Na tela do notebook o assunto da vez: impeachment. Os ministros José Eduardo Cardozo (Advocacia-Geral da União), Nelson Barbosa (Fazenda) e Kátia Abreu (Agricultura) fazem a defesa da presidenta Dilma na Comissão Especial do Senado que analisa o pedido de impedimento. Ele então silencia o aparelho para iniciarmos mais uma entrevista.

Mostra-se confiante e diz esperar que o Senado, por justiça, não seja favorável ao impeachment da presidente. Na entrevista, não usou a palavra golpe, mas em sua página no Facebook destacou a importância de “mostrar nosso repúdio ao Golpe”. Assim, com caixa alta.

Questiono-lhe se existe uma perseguição ao PT. Fica em silêncio. Quase que segurando as palavras solta: “Eu acho que… tem”. Fica em silêncio mais uma vez, até que dispara: “O PT está na berlinda em funções dos problemas havidos com o mensalão e com os problemas descobertos na operação Lava Jato. Obviamente isso nos fere muito. Quando se está numa grande organização com mais de um milhão e meio de pessoas e alguns cometem erros gravíssimos, como o de enriquecimento ilícito, é importante nós procurarmos corrigir estes erros e procurar agir com toda correção e transparência. É o que eu tenho procurado fazer”.

Sobre a possibilidade de mudar de legenda não nega, mas também não afirma. Parece jogar a responsabilidade para seus seguidores da rede social. “Se você olhar o meu Facebook tem sempre pessoas dizendo “saia do partido”, mas eu… a maioria tem apoiado, então… sempre tem alguns que criticam, mas a maioria, a maior parte, tem dito para eu continuar a batalha”.

Acredita que o atual processo de impeachment tem muitas distorções. Além disso, tem convicções de que Dilma é uma pessoa séria e que não cometeu crime de responsabilidade. “Se eu fosse senador, votaria contra a possibilidade de impedimento dela. Tenho expectativas de que não haja impeachment, mas, se acontecer, será ruim para a América Latina e para o Brasil”, avalia.

Com um discurso quase que geralmente ‘para fora’ do PT, Suplicy é um entrevistado que fala no tempo dele. Nem sempre mostra objetividade nas respostas. Apesar de ter gosto por frases longas, principalmente a assuntos ligados à renda básica, têm momentos que é direto demais, e não se mostra disposto a aprofundar o assunto. Exemplo disso é a sua avaliação sobre a possibilidade de novas eleições como saída para a atual crise política. “O melhor é termos a continuação do governo Dilma até 2018”.

Para que a esquerda supere a crise política, o ex-senador aposta no empenho de todos “para acertar, fazer bem as coisas e ganhar maior credibilidade, todos nós em conjunto, e agir com seriedade e honestidade. Infelizmente teve alguns que cometeram erros graves, que prejudicaram todos do partido.”

Sobre o PT, reforça: “Se todos agirmos com correção, vamos conseguir fazer com que volte a ser um partido forte”.

No meio de tanto otimismo, que tenta demonstrar pela a continuação do mandato de Dilma, eis que há uma grande preocupação: a possibilidade de Michel Temer assumir. “A postura das pessoas que estão sendo anunciadas para constituir o governo dele são pessoas de posições muito mais conservadoras. Inclusive, eu acho que tem muito mais probabilidade da presidenta Dilma caminhar na direção da renda básica do que a equipe do governo do vice-presidente”, enfatiza.

Sobre a relação PT e PMDB, disse que o “partido parceiro não agiu com correção e especialmente este conluio do Eduardo Cunha, que não merece credibilidade”. Questiono se, então, fica uma lição ao PT de não fazer alianças com partidos que sejam tão diferentes ideologicamente. “Olha, sempre que eu fui parlamentar, representante do povo, recomendei aos chefes do poder Executivo que, fosse na oposição ou na base do governo, dissessem aos parlamentares: ajam de acordo com a sua consciência, com o interesse do público e nunca por estar indicando qualquer pessoa para o poder Executivo ou porque vamos liberar emenda de sua autoria”. Uma frase rara de se escutar da boca de um político em tempos de Lava Jato.

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Suplicy corre e, de tanto correr, voa. Não com asas, mas com as próprias pernas. Foram várias pistas de corrida até aqui. Algumas com pedrinhas de brilhantes, outras com pedras sobre pedras. Colecionou vitórias e derrotas. Foram anos de corridas no mundo acadêmico: foi professor da FGV e é PhD em economia na Michigan State University. Mas foi a partir de 1977, com 36 anos de idade, que saltou para o universo da política, quando se filiou ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro). No ano seguinte, foi eleito deputado estadual por São Paulo.

Há 36 anos, estava entre aqueles que assinaram a ficha de fundação do PT (Partido dos Trabalhadores).

Agora, aos 74 anos, se prepara para mais uma corrida, dessa vez rumo à Câmara Municipal de São Paulo. A largada, como manda o figurino, foi cheia de emoção. Suplicy explorou seu lado mais honesto. Sem cerimônia, doou R$ 176.267,67 ao Fundo de Cidadania da Prefeitura.

O montante corresponde ao salário anual recebido por ele como secretário da prefeitura. Cargo recentemente deixado para se candidatar a vereador nas próximas eleições.

Antes de tomar a decisão de deixar a secretaria, disse que se reuniu com o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, para tratar do assunto. “Perguntei se ele preferia que eu continuasse como secretário de Direitos Humanos, ou se preferia que eu fosse candidato a vereador. Ele e o partido acharam bom que eu seja candidato a vereador”.

Suplicy não é o único petista a deixar a prefeitura. O secretário municipal da Cultura, Nabil Bonduki e o secretário de Serviços, Simão Pedro, também entregaram o cargo para concorrer a uma cadeira na Câmara de Vereadores. Ora, a decisão dos três pode ser uma forma de ajudar a fortalecer o partido na cidade, reforçar a bancada do PT na Câmara. Esse filme não é inédito: em 1988 Eduardo Suplicy fez este papel de puxador de votos, quando foi aconselhado pelo PT a se candidatar às eleições municipais “para ajudar na eleição de Luiza Erundina”, eleita naquele ano a primeira mulher prefeita de São Paulo.

Coincidência ou não. Há 28 anos, quando foi eleito o vereador mais votado de São Paulo, concorrendo pelo PT, festejou a passagem do ano – de 1988 para 1989, correndo a São Silvestre. Neste ano, em 12 de março, mergulhou de cabeça num dos percursos da “Corrida por Manoel”, projeto do jornalista e maratonista Rodolfo Lucena, que fez 40 corridas para marcar as quatro décadas da morte do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, mais uma vítima da ditadura civil militar brasileira.

Suplicy estava bem à vontade. Alongava-se em frente ao monumento em homenagem aos mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar, no parque Ibirapuera. Vestia uma regata azul marinho por dentro do short preto. Um desempenho louvável que denuncia a prática de exercícios físicos. Corre pelo menos três vezes por semana, hábito que carrega desde a época do boxe. Na juventude, corria para manter a movimentação no ringue. Sua participação na “Corrida por Manoel” foi por meio da Secretaria.

Há um pouco mais de um ano, depois de 24 caminhando sobre os tapetes azuis do Planalto Central, o ex-senador voltou a trilhar seu caminho sobre o tapetão de concreto paulista, por meio da Secretaria. Nada foi proposital, é que em 2014, “tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra”.

“Foi bastante difícil a notícia de que não fui eleito, porque tenho a convicção de ter realizado um trabalho muito significativo e relevante para o bem da população de São Paulo e do Brasil”.

Ser derrotado por José Serra na campanha à reeleição lhe proporcionou mais contato com os paulistanos. Tempo que pode ter colaborado para o fortalecimento de sua relação com os eleitores de São Paulo, Estado em que o PT teve menos votos. Sábio, deve ter entendido que não se trata de tentar remover as pedras, o que seria inútil, mas de cavar nelas um novo caminho.

São defesas que Suplicy aprendeu ainda jovem com o pugilismo, modalidade que lhe rendeu título de campeão. “O boxe foi um aprendizado notável da técnica de esquivar, dançar, golpear, estar preparado para se defender diante das mais difíceis situações da vida”, descreve em “Um Notável Aprendizado”, uma coletânea de textos autorais.

Experiente na arte de correr, ele deve saber que caminhar na pista antes da corrida lhe dá a oportunidade de criar um mapa em seu cérebro, para identificar os obstáculos que vai encontrar, o traçado mais rápido a seguir ou mesmo alguns saltos que não deve tentar. E a distância exata que vai ter de percorrer.

Economista, domina os números e guarda os mais importantes na memória. Como aqueles que foram castigados pela tempestade que atingiu o PT (Partido dos Trabalhadores) em São Paulo na eleição de 2014. “A Dilma teve 25% dos votos, Alexandre Padilha teve 18%, e eu tive 32,5%. Uma votação muito significativa, mais de 6 milhões de votos, mas perdi a eleição.”

Com olhar longe, voz serena e pausas entre as frases, discorre sobre a sua trajetória política. Parece ler sua própria biografia. Já foi deputado estadual e federal, vereador, presidente da Câmara Municipal de São Paulo. Sabe de cor o número de votos que alcançou em cada eleição vitoriosa. Em 1990, foi o primeiro político do PT eleito ao Senado. “Tive 4,2 milhões, ou 30% dos votos válidos”, recorda-se, e usa desta trajetória para expressar que não embarca num retrocesso político.

Sobre um possível retorno à Brasília, o petista prefere não fazer previsões para além deste ano. Parece ater-se aos projetos em curto prazo e, sem titubear, responde: “Vou continuar a batalha para instituir a Renda Básica de Cidadania”.

Sua agenda é lotada. O celular, o telefone, os e-mails não param. A correria atropela até seu horário de almoço. “Geralmente, a gente deixa um horário livre para ele almoçar, mas ele não respeita a agenda, passa dos horários”, observa Aristeu Moreira, um dos assessores da Secretaria de Direitos Humanos de São Paulo.

Suplicy tem semblante suave, às vezes parece sério, e em outros momentos fica entusiasmado como um adolescente. Fala pausadamente e tem gosto por frases longas. Gosta de olhar nos olhos, mas também perde o olhar ao buscar por suas lembranças. As mãos não param quietas. Ora se entrelaçam, ora vão ao queixo, ou ajeitam as sobrancelhas.

Nas ruas, um olhar mais direto em sua direção é como se fosse um convite para o início de uma conversa. Lá vai ele estender a mão para um garotinho, de uns 10 anos, com sorriso travesso, que disse: “E aí Suplicy?”. Ao atravessar a rua, leva uma encarada convidativa e começa a conversar com o homem de paletó, que caminhava para o trabalho.

No meio de tanta correria, Suplicy tenta reservar principalmente os fins de semana para estar com a família. É pai de três filhos. Eduardo − o Supla − e João são músicos, juntos formaram a banda Brothers of Brazil. O do meio, André, é advogado. O “papito” também é avô de seis netos. “Procuro especialmente estar sempre com os meus filhos e netos, almoçar, jantar com eles”.

A prole masculina é fruto do casamento de 36 anos com Marta Suplicy (atual senadora pelo PMDB), que terminou em 2001. Namora a jornalista Mônica Dallari desde 2003.

Se os meninos optaram por ficar longe da política, a filha caçula, a Renda Básica de Cidadania, é entranhada no meio. Planejada com todo esmero pelo pai, nasceu em 2004. Lula foi o parteiro. Passados 12 anos do nascimento, o pai insiste em tornar sua cria conhecida mundialmente. Também pudera, a menina é tida como uma solução possível para diminuir a crescente desigualdade no mundo.

Como pai coruja que é, Suplicy não cansa de falar da filha. Seja numa entrevista, seja numa visita internacional, ou numa reunião qualquer. “Consegui feitos muitos significativos, inclusive ter aprovado um projeto pioneiro no planeta terra, porque o Brasil é o primeiro país do mundo que aprovou uma lei para instituir uma renda básica com direito a cidadania para todos os habitantes do Brasil”, explica.

A Renda Básica de Cidadania é um projeto de distribuição de renda, no qual todo brasileiro − pobre e rico − terá direito a receber um valor mensal pelo governo, a fim de atender às necessidades vitais de cada pessoa. A ideia é instituir por etapas, a critério do poder Executivo, começando pelos mais necessitados.

Parece uma utopia, mas a menina dos olhos de Suplicy é bem vista pelo mundo a fora. Tanto que em fevereiro ele recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, conferido devido à “alta postura moral e ética” do político brasileiro e também à sua contribuição para formular o programa Renda Básica.

No Brasil, a Renda Básica é encarada como uma lei difícil de ser implementada (apesar de ter inspirado o Bolsa Família). Mas, no exterior, alguns países mostram interesse na medida, como Namíbia, Holanda, Finlândia e Suíça. E Suplicy pode falar horas sobre cada um deles: “Na Suíça, em 5 de junho próximo, haverá um referendo onde vão perguntar se a população quer ou não receber uma renda básica”.

Mas são os exemplos já em execução que fazem Suplicy vibrar, como o caso clássico do Alasca, que se tornou o Estado mais igualitário dos Estados Unidos ao implantar a renda mínima em 1980. Também gosta de citar Macau, cidade autônoma da China. “Desde 2012, ou antes até, começou a pagar para os 675 mil habitantes uma renda básica”.

Em terras tupiniquins, os projetos andam devagar demais. Há mais de dois anos o pai da Renda Básica tenta marcar um encontro com a presidenta Dilma para, então, conseguir dar asas para sua filhota. Hoje ele coleciona mais de 20 cartas já enviadas à chefa de Estado. “Sabe que eu estou na expectativa da presidenta Dilma me conceder uma audiência para conversarmos sobre uma proposta que eu fiz: criar um grupo de trabalho para estudar as etapas em direção a Renda Básica de Cidadania”.

Para que a caçula não caia no esquecimento, Suplicy insiste em torná-la presente. Ao ponto de ser apelidado como o “chato da renda mínima”. “Se prepare para ouvir sobre a Renda Básica por uma hora”, aconselhou-me um chegado de Suplicy, quando soube da entrevista. Suplicy escreveu o livro “Renda de Cidadania − A Saída é pela Porta”, onde apresenta os fundamentos do programa.

O Suplicy garoto, agora homem maduro, está no meio do debate com moradores de rua. Talvez quando menino, inquieto, curioso, não entendesse a profundidade e o tamanho dos contrastes. Hoje, mostra disposição para minimizá-los, tem anseio por justiça social, mas a solução está longe de suas mãos, e não depende apenas delas. Mas a pressão não, a pressão está diante de seus olhos, de seus ouvidos. Os ânimos se exaltam.

“Vou falar uma coisa: se tirar nóis daqui, nóis vai voltá di novo”, fala uma moça. Quase que atropelando sua voz, outra diz aos berros, estridente: “É uma coisa só que todo mundo quer aqui: mo-ra-di-a, entendeu? Têm vários galpões aí vazios, faz um prédio do CDHU e coloca todo mundo dentro e acabooo. Agora não, fica no vai num vai, vai num vai. Se tirar, a gente volta di novo e acabô.”

O político perde a voz, porque os questionamentos de Eduardo, homem, negro, prestes a perder o pouco que tem, abafa qualquer palavra que sai da boca do Eduardo branco, político e bem nascido. O cenário muda. Suplicy aumenta o tom de voz:

– Tá bom, você combinou que ia me ouvir.

– Não adianta vir aqui com arquiteto e dizer que vai resolver o meu problema – atropela Eduardo.

– O problema não é só o seu, e eu sei disso – Suplicy se levanta, vai ao encontro de Eduardo, abre os braços, e diz com voz ainda mais alta: – Eu vou falar para os outros, mas você não deixa.

“Deixa o Suplicy falar”, “deixa o Suplicy falar”, a mulherada pede.

O até então secretário solicita que mais um levantamento seja feito para a criação de mais um diagnóstico. Em seguida, embarca em sentenças intermináveis para encontrar soluções por meio da economia solidária e do cooperativismo. As duas medidas são louváveis, mas para estas pessoas existem questões mais urgentes: “um teto”. Embora o secretário explique, eles não têm noção do que tudo aquilo significa de fato, mas percebem que é um caminho longo a ser percorrido.

Depois dos comentários e sugestões da equipe de coordenadores, a reunião chega ao fim, com promessa de ser retomada. Com um ar já seguro, antes de se despedir, Suplicy se aproxima dos moradores como se fosse confessar algo e começa a falar de sua caçula, a Renda Básica. “É uma ação que quando decidida para valer vai transformar a vida de cada um de vocês. Eu tenho batalhado por isso há anos e vou continuar fazendo. Enquanto isso, temos que pensar soluções e levar os problemas apontados aqui ao conhecimento do prefeito”.

Antes de ir embora, atende ao pedido de uma moradora. A moça se queixa do entulho amontoado em frente ao pedaço de terra ocupado. Imediatamente, Suplicy faz uma ligação, depois garante que a montanha descartada será removida.

O menino se vai. Agora adulto, ainda se inquieta com o que existe além dos muros dos Matarazzo. Provavelmente é essa inquietação que o move para além deles. É ela que o insere na busca pelo fim da desigualdade social. Talvez não alcance este feito, mas certamente será lembrado como o homem que tudo tinha e sempre se preocupou com quem não tinha.

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