Relato da homofobia em um trem paulistano
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Relato da homofobia em um trem paulistano

Um sujeito partiu pra agressão verbal sem imaginar a coragem de um jovem numa noite fria de São Paulo

em 27/07/2016 • 01h30
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Na noite fria da última quinta-feira (21), o trem da Linha 9-Esmeralda da CPTM cortava tranquilamente o inverno de São Paulo, correndo ao longo da Marginal Pinheiros por volta das 22 horas. Dois rapazes conversavam. Um deles falava ao amigo sobre uma decepção amorosa com outro rapaz. Eu ouvia (afinal, o transporte é público e coletivo) sem identificar qualquer traço de vulgaridade. Não havia palavrões ou qualquer termo chulo que ruborescesse ouvidos puritanos. Era uma conversa normal.

Eis que um sujeito, careca e com costeletas de Wolverine, moreno claro, com cerca de cerca de 1,65 metro, calças pretas, jaqueta marrom-apagado quase cinza, surge do nada e dispara: “Vocês são um lixo.”

Fui automaticamente tomado por pânico. O agressor estava com as mãos no bolso e poderia estar armado. Mas fui surpreendido pela reação de um dos ofendidos: “Parabéns pela sua opinião, mas ela não me interessa.”

O agressor fez outro ataque: “Seus pais devem ter vergonha de você.”

O ofendido retrucou corajosamente, encarando o sujeito: “Meus pais têm orgulho de mim.”

Era possível tocar a tensão – de tão densa. Todo o vagão fixou o olhar no agressor. O agredido não baixou a guarda. Ele parecia inclinado a retrucar fisicamente se agressão deixasse de ser verbal.

Mas como acontece sempre quando um idiota é confrontado, o agressor skinhead murchou, levando seu obscurantismo pra debaixo do tapete da história.

Nutri imediata admiração pela coragem daquele rapaz. Até porque nunca tinha presenciado a homofobia real ao vivo. Não era aquela homofobia folclórica (se é que se pode chamar assim) das piadas ou o discurso eleitoral de deputados que tantas vezes ouvi. Foi chocante ver um ser humano chamar outro de “lixo” simplesmente por ele ‘ser diferente’.

Imaginei quantas vezes amigos e outros gays que conheço foram agredidos por serem quem são, provavelmente vítimas diárias do preconceito e do ódio. Eles e elas são heróis e heroínas de uma guerrilha pela liberdade.

A América Latina se debate há anos com a homoafetividade. Argentina, Brasil, Uruguai e Chile (nessa ordem) já regularizaram a união estável entre pessoas do mesmo sexo. O México se prepara.

Foi uma batalha longa até a obtenção desse direito básico em Estados laicos, nos quais a liberdade de culto e de dogmas religiosos estão preservados. Mas ainda é pouco.

Respeitar uma pessoa por sua homoafetividade precisa ser ensinado até ser uma trivialidade que não nos faça perder tempo discutindo o ódio. Por isso, criminalizar homofobia é passo decisivo. É isso o que vetará os fundamentalistas do ódio de invadir o trem da liberdade à meia luz do bom senso com sua idiotice raivosa.

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