Preso ou candidato, destino de Lula aumentará polarização
Análise

Preso ou candidato, destino de Lula aumentará polarização

Três brasilianistas entrevistados pela Calle2 falam sobre futuro político do ex-presidente; nem todos descartam possibilidade de o petista disputar eleições, mas preveem aumento da divisão de posições

em 09/03/2018 • 20h06
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Ao contrário do que apontou pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha divulgada no dia 1º de fevereiro, onde 53% dos brasileiros acreditam que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva será preso, contra 44% que dizem o contrário, estudiosos do cenário político do país ainda consideram a possibilidade de o ex-presidente participar das eleições.

Calle2 entrevistou três estudiosos da política brasileira: James Green, historiador da Brown University, Peter Hakim, presidente emérito e pesquisador do Inter-American Dialogue e Mark Langevin, diretor do Brazil Initiative.

Os estudiosos admitem que, caso Lula seja impedido de disputar o pleito, sua carreira estará encerrada, apesar de não descartarem que ele mantenha influência no jogo decisório. Os três concordam que, independentemente do que aconteça com ex-presidente, o Brasil deve ver aumento da polarização política. Nem todos, porém, acreditam que Lula será impedido de concorrer.

Peter Hakim acredita que a decisão final sobre o destino de Lula será tomada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que estará de olho nas pesquisas de intenção de voto.  “Se esses números [intenção de voto] permanecerem em um patamar alto, excluir Lula das eleições significaria negar à maioria dos eleitores sua escolha para presidente, o que aprofundaria a polarização política e a desconfiança no governo, além de enfraquecer qualquer compromisso com a democracia e reduzir a confiança no Judiciário”, adverte Hakim.

 O especialista entende que o STF precisa ser extremamente cauteloso em seu raciocínio. “Sem explicação convincente, dar a Lula passe livre para as eleições poderia deformar a reputação do Judiciário, sem ajudar a reforçar a democracia brasileira e sem por fim à atual crise de governança”, avalia.

 Para o historiador James Green, Lula terá o mesmo impacto a longo prazo do ex-presidente Getulio Vargas (1882-1954). “Ele será amado por muitos e odiado por outros. Se for preso, Lula não precisaria cometer suicídio para que milhões de pessoas o adorassem como uma figura popular que se importou com os pobres e transformou a vida de tantos. Vivo, o petista se tornará uma figura nacional, e cada foto dele na prisão despertará empatia e paixão entre aqueles que viram suas vidas transformadas durante seu governo”, aposta.

 Em entrevista publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na útlima quinta-feira (1º de março), o ex-presidente disse que está preparado para ser preso, mas acredita que será absolvido.

 Mesmo uma eventual prisão domiciliar, na opinião de Green, conservaria a tremenda popularidade de Lula e preservaria sua influência política pelos próximos anos, especialmente se a centro-direita concentrar o poder.

 “Não acho que Lula tenha chance de retornar à presidência, mas poderá ser uma força importante na redefinição dos rumos da esquerda no Brasil”, comenta.

 Já Mark Langevin afirma que Lula estará fora do jogo eleitoral deste ano. “O PT deverá insistir numa campanha paralela para colocar em xeque a legitimidade de sua condenação e da própria corrida presidencial. Não será algo bom para o Brasil neste momento. Há muita incerteza, e o tratamento do STF ao caso Lula pode aumentar a polarização”, acredita.

 O historiador James Green admite dificuldades para o PT recuperar o poder caso seja negado a Lula o direito a disputar as eleições em outubro. “Se ele não for candidato, será difícil transferir a sua popularidade para outro nome. Isso dependerá, em parte, de quem será o escolhido do partido e do tempo restante para a votação”, observa.

 Green crê ser muito prematuro prever o resultado das eleições. No entanto, aposta que, em caso de a campanha comportar entre 16 e 18 candidatos, como ocorreu em 1989, será impossível determinar os dois adversários que disputarão o segundo turno.

 Mark Langevin acredita que a candidatura de Lula não sairá antes de agosto ou de setembro. “Se não puder concorrer, sua carreira política estará encerrada, mas ele ainda será referência histórica para o Brasil. Muitas pesquisas reconhecem que ele deu incríveis contribuições ao Brasil e ao desenvolvimento do país. A história o tratará melhor quando se descobrir os efeitos sistemáticos da Operação Lava Jato, especialmente em relação aos caríssimos financiamentos de campanha. A longo prazo, o foco se voltará para os defeitos sistemáticos da política e não para as personalidades”, diz.‎

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