Por espaços feministas negros mais trans inclusivos
Colunistas,Negra sí, Negra Soy

Por espaços feministas negros mais trans inclusivos

Primeira Marcha do Orgulho Trans marcou urgência de discutir pluralidade do movimento

em 03/06/2018 • 14h04
compartilhe:  

Dia primeiro de junho de 2018 aconteceu a primeira marcha do orgulho trans em São Paulo. Fui marchar em solidariedade às pessoas que mais têm me ensinado sobre empatia nos últimos anos. Por serem extremamente oprimidas, as pessoas trans seguem à margem do mundo. A bolha periférica, cristã, mackenzista que eu vivia não me permitiu conhecer nenhuma pessoa trans até a minha idade adulta e olha que eu transitava pela capital paulista. Morava (moro) na periferia da zona leste e pegava metrô todos os dias até Higienópolis, onde estudei boa parte da minha vidinha.

Esse texto aqui é para dizer que tenho vivido com intensidade o que é ser uma mulher cisgênero (pessoa que se identifica com seu gênero de nascença), negra, periférica há muito tempo. Tenho estudado, lido, conversado, sobretudo, sentido. Busco saber sobre a nossa história, nossa contribuição (gigante) na construção da sociedade, nossas dores, nosso feminismo, nossa comunidade, nosso potencial… Ser empática a uma outra mulher negra para além de ser algo natural transformou-se em ser coerente com minha prática feminista.

Porém, eu sabia muito pouco sobre o que é ser uma pessoa trans, em especial uma mulher trans. Embora, eu nunca tivesse tido problemas por vê-las enquanto pessoas detentoras de direitos, não conhecia as dores de uma pessoa trans. Não sabia além do senso comum. Mesmo nunca podendo ter uma ideia real sobre o que é ser um corpo trans no mundo, ando aprendendo e escutando manas queridas.

Quero aqui agradecer quatro mulheres que estão me ensinando muito. Uma é Cinthia Gomes, mulher negra cis, jornalista, que realiza junto com um monte de gente linda o “Bazar das Poderosas” voltado a homens e mulheres trans. A segunda é Neon Cunha, publicitária, que lindamente soma com a Marcha das Mulheres Negras, apontando caminhos, sendo generosa, nos ajudando a crescer enquanto pessoas. Foi ela que me incentivou a escrever esse texto por acreditar que a transformação social passa pela empatia da pauta trans também por pessoas cis. Já Erica Malunguinho, parideira do quilombo urbano Aparelha Luzia, que traz nas suas vivências a interseccionalidade que falta no movimento negro feminista. Seu corpo de mulher, trans, nordestina, negra, empreendedora, acadêmica carrega diversas marcas que tanto me provoca a querer entender mais e agir. E, por fim, tem ela, Verônica Bolina, essa mulher fascinante, extremamente educada e agradável que tive a honra de dividir alguns momentos.

Se, infelizmente, aprendemos apenas a humanizar as pessoas por meio da dor, assim que ouvi a história de uma travesti agredida dentro do sistema prisional, aquilo me revoltou. Mas quando vi o rosto desconfigurado de Verônica, seios à mostra, tendo qualquer dignidade subtraída, aquilo me doeu fundo. Reconheci ela, ali, pela dor, como mais uma mulher negra como tantas de nós, violentada pelo estado machista, racista, patriarcal e transfóbico.

Meses depois, quando conheci Veronica no CRD, o Centro de Referência e Defesa da Diversidade, a mulher que vi era tão distante da imagem que varreu o mundo da internet. Quem conhece Vevê, como é chamada, pode achar que sua altura e porte faz um contraste interesse com sua doçura. Verônica é meiga. Doce. Tão leve que fica difícil imaginar que aquele corpo passou por atrocidades.

Naquele dia, Veve fez uma fala bonita, sobre erros, acertos, encontros e desencontros consigo mesma, com sua história, com sua identidade. Contou sobre a força que recebeu das pessoas e quanto estava animada por participar pela primeira vez da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.”Estou honrada de representar minha classe, de mulheres trans e negras”, contou animada à repórter Rute Pina, do Brasil de Fato.

Lembro que editei com alegria esse texto. E pensei: que raro poder contar essa história positiva de uma mulher negra trans, que foi violentada pelo estado, acolhida pelo movimento feminista, em especial pelas negras, e agora reconstrói sua vida e se diz feliz. Um contentamento simples para quem está acostumada a escrever sobre as dores negras.

Meses depois, quando Veve sumiu e ficou desaparecida por semanas, mulheres negras se importaram, fizeram campanha, foram atrás, refizeram o trajeto dela, panfletaram… Quando foi encontrada, estava presa. Foi um misto de alívio e tristeza, já que ela estava viva, porém, encarcerada. Verônica foi transferida para um hospital penitenciário em que recebe cuidados psiquiátricos e onde segue até hoje.

O primeiro de junho histórico marcado pela primeira Marcha do Orgulho Trans de São Paulo nos trouxe a urgência de entender que travestis, mulheres e homens e trans têm seus corpos violentados e seus direitos negados sem que a esmagadora maioria da população se importe. Além disso, é preciso enxergar as pessoas existentes por trás de todo e qualquer estigma social.

Guardadas todas as devidas proporções, enquanto mulher negra, somos obrigadas a combater sistematicamente os estigmas que pairam sobre o nosso corpo e o questionamento constante sobre nossa intelectualidade. Sendo assim, não faria sentido construir um movimento de mulheres negras que ignore as dores das manas trans, que não esteja aberto para recebê-las, para torná-las parte do que somos, para aprender com elas. O movimento feminista negro precisa ser cada vez mais trans inclusivo.

Precisamos falar de cissexismo (a crença de que o gênero de pessoas cisgênero é de alguma forma mais legítima que aquela de pessoas trans), transfobia e racismo, ouvir das manas que sentem esses elementos no corpo, e agir coletivamente para mudar essa realidade.

A interseccionalidade do movimento feminista é colocada à prova diante das questões trazidas pelas manas trans. Uma interseccionalidade que precisa transcender o discurso: os espaços feministas precisam ser acolhedores para todas as mulheres. De resto, é o que apontamos enquanto negras nos espaços que constroem ainda um feminismo branco: as especificidades das mulheres negras precisam ser contempladas para se alcançar uma prática feminista de fato. O mesmo com as trans negras, dentro do movimento de mulheres negras: luta antirracista e interseccional é necessária para libertar todas as mulheres negras.

Audre Lorde, negra, lésbica, feminista, socialista, poeta e mãe nos ensinou que entre aqueles e aquelas que “compartilham objetivos de libertação”, não pode existir “hierarquia de opressão”.

Em junho de 1981, Lorde foi a fala principal na conferência da Associação Nacional de Estudos de Mulheres, em Connecticut, nos Estados Unidos. Lá, ela enquanto mulher negra e lésbica afirmou: “Eu não sou livre enquanto outras mulheres são prisioneiras, mesmo quando as amarras delas são diferentes das minhas.” Sem usar a palavra interseccionalidade, Lorde dá exemplos que coloca na ordem do dia de todas as mulheres o combate a todas as opressões.

Quando falhamos em reconhecer as especificidades e pluralidades das mulheres negras (passando por orientação sexual, identidade de gênero, classe, acesso à educação, tom de pele, etc etc etc), não só estamos contribuindo para a opressão delas, mas com a nossa própria também.‎‎

Foto: Rute Pina/Brasil de Fato‎

Comentários

Comentário