O que países latinos podem fazer diante da desaceleração chinesa?
Análise

O que latinos podem fazer diante da ‘crise’ chinesa?

Queda do preço das commodities e a desaceleração da economia chinesa impõe desafios aos governos latinos; uma possível saída é o fortalecimento da união regional

em 16/02/2016 • 23h00
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A corrida do gigante começa a arrefecer. Enquanto a China – o enigmático e grandioso país asiático com mais de 1,3 bilhão de pessoas e a segunda economia do planeta – começa a desacelerar, os países da América Latina estudam como se livrar da sina de exportar produtos primários para driblar os efeitos negativos em suas próprias economias. Os piores efeitos estão concentrados na Argentina, Equador, Brasil e Venezuela, mas toda a região deve ser afetada se a situação persistir de acordo com pesquisadores e órgãos oficiais.

Após o PIB (Produto Interno Bruto) chinês avançar cerca de 10% por 30 anos até 2010, o país resolveu colocar o pé no freio. Em 2014 cresceu 7,3% e o FMI estima que alcançou 6,9% em 2015, devendo ficar em 6,3% em 2016. Os passos mais lentos do gigante asiático diminuem a demanda por produtos latinos. Mas, o que fazer?

A primeira resposta de Carlos Mussi, diretor do escritório brasileiro da Cepal (Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe) é que a região precisa entender melhor as etapas de produção da China para ser parceiro em cadeias de valor mais sofisticadas, e deixar de ser apenas exportador de commodities, como minério de ferro, cobre, petróleo, soja e celulose.

“Primeiro, os países deveriam aprender como os chineses estão escalando ou dividindo sua tecnologia de produção. Outras nações, como Japão e Coreia do Sul, acabam exportando algumas etapas desse processo para outros países. A América Latina também poderia buscar contribuir em algumas dessas etapas”, analisa.

Antes disso, porém, seria importante descobrir como nossa indústria poderia se inserir nessa cadeia chinesa. Se como fornecedores ou se como parceiros. “Brasil, Argentina e México já exportam máquinas para a China, mas ainda é um volume pequeno frente a escala chinesa”.

Mussi aposta ainda que, na área de serviços, a América Latina possui programas e know-how que podem ser úteis para os chineses. “O Brasil se vangloria pela gestão do Bolsa Família, com mais de 40 milhões de pessoas. Isso é pouco para a China, mas eles podem adaptar nossa tecnologia”. Programas de inclusão financeira, assuntos regulatórios e até estudos sobre dificuldades da América Latina podem despertar interesse dos chineses, para eles não as repetirem, comenta o diretor.

A união dos países ‘hermanos’ é a principal saída apontada por Wagner Iglecias, do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP, para a desaceleração. Uma das possibilidades, defendida por governos de direita, afirma Iglecias, é buscar acordos de livre-comércio com a União Europeia, fortalecer a Aliança do Pacífico, ou ingressar no Tratado Trans-Pacífico, ambas iniciativas dos EUA para barrar a influência econômica e geopolítica da China no mundo.

Outra saída é fortalecer as relações econômicas entre os países latino-americanos, de modo a buscar uma situação menos frágil e desvantajosa para a América Latina no contexto econômico mundial atual.

“A melhor resposta política que a América Latina pode dar à desaceleração da economia mundial e ao apetite voraz das grandes potências é a união. Juntos nossos países e nossos povos são mais fortes, nas duras negociações com Washington, Beijing e Bruxelas.”

Segundo o Banco Mundial, os países menos diretamente afetados no ano passado pelo crescimento menos robusto da China e pela queda no preço das commodities foram Bolívia, Colômbia, Paraguai, Peru e Uruguai, que devem ter alcançado crescimento de 3% em média.

Já a Argentina cresceu pouco acima de 0% e Brasil, Equador e Venezuela terão uma taxa de crescimento negativa. O Chile fechou 2015 com um crescimento de 2,2% e a instituição internacional estima que deve melhorar em 2016 porque realizou ajustes internos.

O estudo “Perspectivas Econômicas da América Latina 2016“, feito por entidades com Cepal, o Centro de Desenvolvimento da OCDE e o Banco de Desenvolvimento da América Latina, aponta que, desde 2000, a relação comercial entre a América Latina e a China experimentou uma expansão excepcional, tendo multiplicado 22 vezes, em comparação com um aumento de 3 vezes com o resto do mundo.

A evolução da participação da China nas cadeias de valor global latino-americanas tem sido notável e ultrapassou até mesmo as participações intrarregionais: entre 2000 e 2011, a participação intrarregional nas exportações da região (backward linkages) cresceu de 5% a 9%, enquanto que a participação da China aumentou de 1% para 11%. Atualmente, a China é o maior parceiro comercial para Brasil, Chile e Peru.

Mas, de acordo com as projeções do relatório, o crescimento das exportações de metais e energia na América Latina irá diminuir de 16% para 4%, e de 12% para 3% para os bens alimentares em 2030.

Esse chamado “pouso ou aterrisagem suave” da China é uma decisão de Estado porque boa parte do crescimento do gigante asiático era visto com prazo de validade ou como de risco.

A China tem taxas de investimento altíssimas (48% do PIB em 2014) que não poderiam ser sustentadas pelo Estado para sempre. Fora isso, crescer em níveis tão altos criou instabilidade de preços em alguns setores – os chineses, por exemplo, têm muito medo de enfrentarem uma séria crise imobiliária no futuro.

Com isso, o planejamento chinês é crescer menos e fazer com que o consumo das famílias chinesas desempenhe um papel mais preponderante na economia, incluindo fortalecer não apenas o setor industrial, mas agora também o setor de serviços na China. E é aqui que a América Latina pode contribuir e acelerar o seu próprio crescimento.

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