O litígio silencioso de Sergio Pitol
Cultura

O litígio silencioso de Sergio Pitol

Enquanto família briga na justiça para ter a guarda de Sergio Pitol, obra do autor mexicano que morreu aos 85 anos é celebrada entre amigos e escritores

em 09/05/2018 • 19h40
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Quando Sergio Pitol desembarcou em Barcelona e percebeu que seus bolsos carregavam uma quantia insignificante para se hospedar de maneira digna na cidade, implorou ao taxista que o levasse a um hotel minimamente estruturado em uma noite qualquer do ano de 1969. A escolha o levou a um cubículo sem banheiro na estreita rua Escudellers, próximo ao bairro Gótico. As letras do mexicano de 36 anos à época ainda eram incipientes em um círculo literário de qualidade estonteante, encabeçado por Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel Gárcia Márquez e outros, no que ficou conhecido como o “boom-latinoamericano’ da literatura’.

O que seria uma passagem rápida na cidade para a entrega de traduções do polonês Witold Gombrowicz para a editora Seix Barral, transformou-se numa estadia de pouco mais de dois anos, interrompidos apenas pela ascensão do militar Luís Carrero Blanco no regime franquista e a censura até então desconhecida por ele em Barcelona.

“Soltar, agarrar o leitor, prender, trazê-lo de volta, soltá-lo outra vez”, disse Sergio Pitol a um apresentador de TV que olhava incrédulo para os lábios de um rosto já desgastado pelo tempo. O vencedor do prêmio Cervantes, em 2005, e do Alfonso Reyes, no ano passado, confidenciava ao jornalista o apreço pelo suspense como gênero literário que mais o agradava ao contar uma história. Os traços dessa preferência, que aparecem em livros como “Desfile do amor” (1984) e “Vida conjugal” (2005), definiram também a vida do escritor que morreu aos 85 anos no último dia 12 de abril.

“Sergio padecia de uma doença neurológica chamada afasia primária progressiva. Mesmo antes de morrer, ele ficou completamente desconectado da realidade”, afirma Luis Demeneghi, primo do escritor, por telefone, à Calle2.

Sergio Pitol e Luis Demeneghi ainda corriam pelo engenho de açúcar da família localizado em Xalapa, no estado de Veracruz, no México, quando a frágil saúde do escritor o obrigou a tornar-se uma criança habituada a calmaria de um vasto jardim no quintal da casa onde viviam. Magro, esguio e com uma respiração quase sempre ofegante, ainda que o esforço empreendido fosse mínimo, Pitol escolheu as páginas do francês Julio Verne (1828-1905) para se refugiar na solidão rotineira durante a infância e parte da adolescência. A relação próxima fez com o que o primo se sentisse responsável nos momentos finais da vida do escritor, que foram, segundo ele, delicados.

“Se naquele momento, você viesse ao México e pedisse uma entrevista com o meu primo, eu asseguro que não iria conseguir, porque não queriam que jornalistas ficassem sabendo da situação dele. Tudo tinha sido montado para parecer que a família queira fazer mal a Sergio Pitol, para ficar com os bens dele. E é exatamente ao contrário. Queriam dizer que ele estava bem, mas ele não estava”, conclui Luis.

A impossibilidade de cuidar do primo levou o caso à justiça de Veracruz. Em meados de 2014, Luis Demeneghi solicitou a tutela de Sergio Pitol, alegando, à época, que o primo já não dispunha de faculdade mental para cuidar dos bens e de si próprio. O Estado, no entanto, definiu que Pitol ficaria sob a guarda de duas enfermeiras designadas pela Universidade de Veracruz, além de Guillermo, chofer e amigo do escritor há 30 anos.

O litígio envolvendo a família do escritor e a justiça de Veracruz seguiu. Até o momento, não há uma definição sobre quem será o beneficiário direto da obra e dos bens de Sergio Pitol. “Nós tínhamos o direito de cuidar dele e do seu patrimônio. Além disso, há um testamento, e esse testamento está comigo. Eu sou o tutor. Sou o encarregado de repartir e cuidar de tudo que diz o documento”, afirma Luis Demeneghi.

Um herdeiro de Alfonso Reyes, William Faulkner e Jorge Luis Borges. “Não gosto de fazer comparações”, disse Margo Glantz ao ser questionada sobre a possibilidade de Sergio Pitol estar no mesmo pedestal da literatura mexicana reservado a Octavio Paz, Carlos Fuentes e Juan Rulfo.  E a escritora, ensaísta e crítica literária vencedora do prêmio FIL de Literatura em 2015 e Doutora Honoris Causa pela Universidade Autônoma do México (Unam) completa:

“Não vejo, no entanto, nenhum escritor contemporâneo com a mesma capacidade dele. Creio que seja muito difícil alguém imitar Sergio Pitol. Seu mundo é muito particular e com uma linguagem extraordinária”.

Ainda que Sergio Pitol tenha espalhado sua obra pela América Latina e Europa, com traduções para o alemão, italiano, húngaro, polonês e russo, poucos livros do autor chegaram ao Brasil. O principal deles, “O Desfile do Amor”, lançado em 1984, retrata o ambiente vivido pelo México durante a Segunda Guerra Mundial. Miguel Del Solar é um historiador mexicano da Universidade de Bristol, na Inglaterra, quando decide voltar à terra natal na década de 80. Ao tentar recriar o ano de 1942 e transformá-lo em livro, Del Solar, que à época tinha 10 anos, revive os dias do edifício Minerva e a babel instituída no local com pessoas do mundo inteiro fugindo do nazismo e dos horrores da guerra.

A obra escrita durante a permanência de Pitol em Praga denota a habilidade do autor em escrever sobre um lugar mesmo sem estar nele. Durante pouco mais de 20 anos, entre 1970 e 1990, a produção literária foi intercalada com a função de conselheiro cultural mexicano em diversas embaixadas pelo mundo, entre elas Polônia, França, União Soviética e Tchecoslováquia.

“Criava continuamente. Sempre pensava em escrever algo sobre o lugar onde estava. E também sobre o lugar que imaginava poder estar”, afirma, à Calle 2, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas, autor de “A viagem vertical”, que lhe rendeu o prêmio Rómulo Gallegos em 2001, e “O mal de montano”, vencedor do prêmio Herralde de Literatura no ano seguinte.

A tragédia e a irreverência sempre foram características da obra de Pitol, lembra Margo Glantz, enquanto descreve os encontros casuais em sua casa na Cidade do México com os escritores José Emilio Pacheco (1939-2014), Carlos Monsiváis (1938-2010), e o próprio Sergio Pitol, dono, segundo ela, de um pensamento político voltado às causas progressistas e totalmente de esquerda, ainda que tal posicionamento não esteja refletido em seus livros.

“Acho que Pitol sempre teve esse elemento paródico, essa caricatura. Isso sempre apareceu nas reuniões que fazíamos”, recorda, para, então, se dar ao luxo de exercer uma única comparação já nos minutos finais da conversa. “Eu creio que Pitol teve uma influência muito importante de Alfonso Reyes. Ele tinha uma grande admiração pela trajetória humanista e pela linguagem dele”, finaliza.

“Sergio Pitol deve muito de seu estilo a William Faulkner. Ele pertence à família de autores que tem Gabriel Garcia Márquez, Juan Carlos Onetti, Juan Rulfo, Carlos Fuentes e outros. Ele encontrou um estímulo decisivo na linguagem, na mescla de consciência de Faulkner”, afirma o escritor e jornalista mexicano Juan Villoro, vencedor do prémio Herralde em 2004, com a obra “El testigo” e do prêmio José Donoso, em 2012, além de ser ex-membro do conselho reitor do prêmio Gabriel Garcia Márquez de Jornalismo.

Para Villoro, o argentino Jorge Luis Borges (1899 -1986) também teve papel fundamental na formação de Sergio Pitol como escritor. “Ele foi um dos primeiros leitores de Jorge Luis Borges. Já o conhecia antes mesmo de Borges ganhar destaque ao vencer o prêmio Formentor, em 1961. Acredito que Borges modernizou e deu um novo repertório aos escritores latino-americanos, e Sergio Pitol também foi conquistado por esse estilo”, conclui.

Em abril deste ano, Pitol foi agraciado com o prêmio Alfonso Reyes, outorgado por diversas instituições culturais mexicanas, entre elas o Conselho Nacional para a Cultura e Artes (Conaculta) e o Instituto Nacional de Belas Artes (INBA). A honraria já foi concedida ao cubano Alejo Carpentier (1975), ao brasileiro Antonio Cândido (2005), ao peruano Mario Vargas Llosa (2010), entre outros. Responsável pela entrega do prêmio, a diretora-geral do Instituto Nacional de Belas Artes, Maria Cristina Garcia Cepeda, exalta a capacidade criativa do escritor mexicano.

“Sergio Pitol se destaca na literatura latino-americana contemporânea por sua originalidade de ver a sociedade de uma forma alegre e irreverente; apesar de sua crítica, revela, em suas obras, esperança em um futuro mais harmonioso” afirmou.

Nos últimos anos, Pitol esteve afastado de qualquer traço da realidade, e também do imaginário que semeou sua obra, enquanto exercia uma combinação cerebral indecifrável para tentar reproduzir qualquer sussurro que se aproximasse da fala. Mesmo com dificuldade em ordenar qualquer tipo de palavra, Enrique Vila-Matas apontava-o como o melhor escritor vivo em língua espanhola.

“Para mim, ele era o melhor escritor em língua espanhola vivo. Ele foi decisivo no meu aprendizado como autor. Sem ele, não teria feito metade do que eu fiz”, conclui de Madrid. Antes da morte de Pitol, ele torcia para que o amigo retomasse a consciência para relembrar um dos passeios que os dois fizeram pelas ruas de Varsóvia, na Polônia, em um dia qualquer de agosto de 1973.

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