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O deserto e a beleza que balança

Atravessar o Atacama e o Salar de Uyuni é uma viagem para quem curte natureza e está disposto a enfrentar um trajeto com aventuras, mistérios e pouco conforto

em 01/12/2015 • 21h00
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Já faz um mês que voltamos do deserto e as imagens que encontramos ali seguem aparecendo, espantosas, em forma de sonho, numa música, nas fotografias, em uma conversa pelo chat. Um mês é pouco para assentar a avalanche de atmosferas presenciadas naquele pedaço da Terra. Vista pelo Google Maps, a imensidão do deserto que cobre parte do Chile, Bolívia e Peru parece ser um manto de areia amorfo e sem fim. Mas quando experimentada de perto, aquela região abre passagens mágicas capazes de expandir percepções. A única coisa que o deserto pede em troca é que você mantenha os olhos abertos. E deixe a frescura de lado antes de embarcar no 4×4 para levantar poeira.

Os carros para sete ou oito pessoas são os únicos veículos vistos cruzando aquelas bandas. Além de algumas inacreditáveis bicicletas montadas por valentes que ousam encarar o trajeto com suas próprias panturrilhas. O que não era nem de longe nosso caso. Na condição de aventureiras amadoras, esperávamos encontrar pelo caminho apenas um chuveiro quente em cada parada. Mas também não foi esse o cenário. E eis a primeira informação valiosa para não-mochileiros que querem visitar o trecho entre o Atacama e o salar do Uyuni: o pacote-deslumbre inclui alguns sobressaltos, como passar uma noite de frio, ou esquecer o banho por mais de 24 horas.

Fechamos nosso tour através do hostel onde nos hospedamos em San Pedro do Atacama, cidade de onde partem todos os passeios oferecidos naquelas redondezas e em áreas nem tão próximas assim, como o Salar do Uyuni, nosso destino final. O maior salar do planeta fica a mais 400 quilômetros de San Pedro, mas como não existem estradas, isso significa uma viagem de três dias para ir e outro para voltar, acordando sempre às 4h30 da manhã, a menos zero grau. Conjunção temerária para quem sofre de mau humor matinal, mas nada que aquela surra de paisagem não resolva logo aos primeiros raios de sol.

Dia 1: Euforia x Noite fria

Desembarcando em Calama, onde fica o aeroporto da região, há um transfer até San Pedro do Atacama durante o qual já aparecem os primeiros nacos de deserto. Depois de uma noite por lá (recomendável aos que seguem rumo à Bolívia, para se aclimatar à altitude), acordamos com o chamado da van que nos levaria até a fronteira. É preciso mostrar o passaporte primeiro para a polícia chilena, e logo para os despreocupados agentes bolivianos. Entre uma fila e outra, surgem os monumentos naturais que inauguram o deserto profundo, como o vulcão Licancabur.

Nosso primeiro café da manhã, ao lado do posto policial, foi rodeado por gaivotas andinas e um vento feroz que nos acompanharia por quase toda a viagem. Ali na fronteira fomos apresentados aos três chilenos que seriam nossos companheiros de 4×4. E ao René, nosso querido guia boliviano que, apesar da pouca idade (e dos quatro filhos), cuidou da gente com a paciência não de um pai, mas de um avô. – Na Bolívia, se você tem 30 anos já não pode se considerar jovem, explicava ele, tentando ser didático com as brasileñas atrasadas e gritalhonas. Mas como não ficar um pouco alucinada diante da paisagem cósmica que de repente se converte na sua nova realidade?

A começar pela sequência de lagoas que se apresenta já no começo da jornada. O primeiro impacto ao entrar no Parque Nacional de Fauna Andina vem com a Laguna Blanca, que fica a mais de 4 mil metros de altura e se une por um pequeno estreito à surreal Laguna Verde. De cor esmeralda contrastante ao azul do céu do Atacama, esta lagoa mora ao lado do mesmo vulcão Licancabur, que dali pode ser visto sob outro ângulo. Apesar da beleza, você não vai querer botar os pés em nenhuma dessas águas, já que elas estão repletas de minerais tóxicos.

Felizmente, no meio do caminho tinha um poço de água limpa e quente: as Termas de Polques, que atingem 27 graus, com outra vista matadora. Demos um jeito de resgatar os biquínis nas mochilas amarradas em cima do 4×4 e rapidamente arrancamos as quatro camadas de roupa que sufocavam nossa alma tropical. Esse ofurô natural no meio do deserto talvez tenha sido o momento mais relaxante da viagem – e o único banho desse dia. Depois de várias horas se acostumando à secura e à altitude, se enfiar na água é uma festa.

No caminho até a Laguna Colorada, ainda passamos por uns gêisers que não emocionaram muito, pelo cheiro de enxofre e o vento mais forte e frio do que nunca. Em compensação, avistar a Colorada do alto da colina foi tão absurdo que a sensação era de estar vivendo uma alucinação coletiva. Os incontáveis tons rosados colorem as águas onde vive uma enorme colônia de flamingos. Até onde a vista alcança, lá estão os pontinhos rosados se mexendo elegantemente. E se você chega mais perto, pode presenciar um grupo deles completamente sereno mesmo diante de câmaras frenéticas. Baixando e subindo a cabeça, os flamingos comiam seus microorganismos de frente para o sol em um movimento que mais parecia uma saudação ao fim do dia.

foto por: Maria Lutterbach
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Lagoa Colorada

Chegando ao alojamento, o cansaço e a fome eram tamanhos que o jantar de salsicha com purê foi festejado como um manjar. A sensação de estar em outra galáxia se chocava com a realidade de compartilhar o banheiro com outras 40 pessoas e encarar o quarto gélido como uma tumba. O cenário de sarcófago se completou quando cada uma de nós se meteu em seu saco de dormir e as luzes se apagaram totalmente às 21h30. Quem se atreveu a abrir os olhos depois disso presenciou umas luzinhas misteriosas no quarto, fato que foi arquivado na pasta “inexplicável” da viagem.

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Dia 2: Uma cidade muda x Pedras que falam

A altitude e a noite gelada derrubaram a energia de metade do grupo e uma das chilenas se apunou (apunarse é sentir o mal-estar causado pela altura, que inclui dor de cabeça e enjôo). Tinha gente que não queria nem saber de olhar pela janela nas primeiras horas cinzas da segunda manhã. René seguia impassível pelo caminho sem estrada e nenhuma sinalização. Com um mapa mental inacreditável, ele parece orientado pelas montanhas, vulcões e por algum rastro deixado pelos outros carros. Nosso guia dirigia em estado permanente de contemplação e não aprovava quando o grupo cochilava: – Se dormem muito, não vão ver nada, repetia. Ele tinha razão.

Olhar o vazio não é só um descanso para vistas urbanas hiperestimuladas como as nossas. Parece que quanto mais você insiste em admirá-lo, mais o deserto retribui com cores, formas e texturas. Imagine passar 30 ou 40 minutos com o carro em movimento e durante todo o trecho enxergar, lá longe, uma mesma montanha, imensa e enigmática, em tons verde-azulados. Esse estiramento do tempo e do espaço, praticamente impossível de ser vivenciado na cidade, é só um dos vários presentes guardados pelo Altiplano.

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‎Se o dia 1 foi o das águas desérticas, este seria o das rochas. Primeira parada: Árvore de Pedra, esculpida pelo vento e cercada de outras formações imponentes.

Não sei se foi o Gipsy Kings tocando no carro ou o anúncio do céu azul, mas de repente o grupo ressuscitou para a beleza em volta. Bem a tempo para aproveitar um raro sinal wifi em plena Lagoa Edionda. Escura e cheirando a enxofre, a lagoa também era casa para alguns flamingos. A próxima descida foi ao Valle de las Rocas, onde fica o famoso condor de pedra. Logo atrás dele, no extenso amontoado de pedras, se veem uns grupinhos sinistros com formas que lembram rostos paralisados. Ou talvez tenha sido efeito do sol em excesso…‎

Mais silencioso que as pedras e um pouco mais colorido, o povoado onde paramos para almoçar se chamava Villa Alota e não tinha nenhuma alma viva além de duas lhamas fazendo a siesta. Uma caminhada rápida pela cidadezinha logo revelou que ela era tão desértica quanto o entorno:

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Villa Alota

A casa da família onde almoçamos tinha um puma empalhado decorando o salão. Algumas horas depois chegamos ao “hotel de sal”, que na verdade era outro alojamento, com melhor estrutura. Quarto, banheiro e chuveiro só para nós seis. Depois da noite do sarcófago, aquilo era um luxo. Ainda ganhamos uma garrafa de vinho de um grupo que viajava em outro carro e retribuímos botando nossa playlist para tocar no refeitório. Ao som do refrão que dizia – I believe in miracles, cantamos juntos a proximidade do salar.

Dias 3: O salar de Uyuni (ou por que as lágrimas são salgadas) 

Saímos de novo atrasados e desta vez o René se injuriou porque poderíamos não chegar a tempo para o nascer do sol no salar. Enquanto ele acelerava, acompanhávamos um fiapinho da lua ainda deitada sobre as montanhas. De repente, lua e montanhas desapareceram e deram lugar a um vazio etéreo. Tínhamos chegado. E o sol gentilmente nos esperou descer do carro para começar a despontar. A beleza escandalosa fez a gente esquecer o frio por alguns instantes. Emociona tanto esse encontro silencioso com o Uyuni que descrevê-lo parece vago como contar um sonho. Mas uma coisa é palpável: o lugar convida a um momento a sós diante para receber os primeiros raios de sol em meio ao branco absoluto e agradecer por ter chegado até lá.

Lágrimas à parte, alguns dados também surpreendem. A imensa mancha branca de mais de 10 mil quilômetros é o que sobrou de uma lagoa pré-histórica que ocupava aquela área há 40 mil anos. O Uyuni é a maior planície de sal do mundo, com mais de 10 milhões de toneladas de sal, além da maior reserva de lítio já encontrada sobre a Terra. Seguimos até a ilha Incahuasi para tomar café da manhã e continuar aproveitando a vista, mas agora de cima das enormes pedras espetadas por cactos. Ao sair de lá para uma segunda parada no meio do salar, descobrimos que nossos colegas de viagem tinham um repertório enorme de poses para fotos com perspectiva distorcida.

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Almoçamos em um pueblo próximo que vendia artesanato local e por pouco não perdemos a festa da Virgem de Guadalupe, que já durava quatro dias. Paramos para ouvir a banda de metais e ver de perto os trajes brilhantes dos bailarinos. A partir dali, o caminho seria de retorno, rumo à nossa última noite na Bolívia. O alojamento precário e de novo sem chuveiro já não espantou tanto. Ao sair da cama de madrugada, as luzinhas mágicas voltaram a dar o ar da graça, agora saindo de dentro do lençol! Plânctons, fadas, ou miragem?

Dia 4: Visão expandida e uma última surpresa

No trajeto até a fronteira, nos despedimos da paisagem cansados, mas extasiados, e certamente ainda sem entender a dimensão daquela jornada. Durante três dias tínhamos percorrido uma trilha praticamente imaginária para chegar a partes insondáveis do planeta e, talvez, a um novo patamar de percepção. Com um abraço apertado, nos despedimos de René e embarcamos na van para retornar a San Pedro. Nossa boa anfitriã Bolívia ainda teve a delicadeza de nos entregar uma surpresa na última curva: filhotes de raposa que cercaram nosso carro e uma lhama fotogênica posando em frente ao vulcão. Agora estávamos mais prontos para dizer adiós.

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Para viajar melhor:

. Nem pense em alugar um carro para desbravar o deserto sem um guia. É perigoso. Pesquise bastante as agências que oferecem os tours para o Uyuni, pois há relatos de viagens conturbadas devido à imprudência de alguns motoristas. Nenhum tour é exatamente confortável, mas dá para encontrar pacotes com quartos para 3 pessoas, em vez de 6.

. É preciso levar moeda boliviana para pagar a entrada no Parque Nacional de Fauna Andina e para usar alguns banheiros pelo caminho. Compre os bolivianos antes de partir para não  encarar o câmbio desfavorável na fronteira.

. Se quiser aproveitar também alguns passeios na região de San Pedro do Atacama, reserve pelo menos mais dois dias além do tour boliviano para curtir a cidade e o entorno. Alguns lugares podem ser visitados de bicicleta!

Kit básico de sobrevivência

. Passaporte e cartão de imigração, aquele papelzinho que a policia dá na entrada do país (sem ele não te deixam atravessar a fronteira).

. Água e lanchinhos: Um galão de 5 litros é suficiente, já que nos alojamentos há água mineral. Castanhas, biscoitos e chocolates são bem-vindos para enfrentar as muitas horas dentro do carro.

. Roupa de frio (mesmo): Cirolas e blusas térmicas para usar debaixo da roupa comum; cachecol; gorro; casaco corta-vento; botas de trekking e óculos escuros. Itens básicos para o frio não arruinar o seu humor.

. Saco de dormir, fronha e um lençol: os alojamentos têm travesseiros e roupa de cama, mas às vezes eles não são muito convidativos…

. Papel higiênico e lenços umedecidos: na falta de banho, os lencinhos salvam!

. Medicamentos: um antitérmico e um analgésico podem ser providenciais se alguém se sentir mal pela altitude. Mascar folhas de coca e fazer movimentos mais lentos também ajuda.

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