Nos bastidores do filme sobre Pablo Escobar
Cultura

Nos bastidores do filme sobre Pablo Escobar

Crônica relata experiência de participar das gravações do longa “Escobar – A Traição”, estrelado por Penélope Cruz e Javier Bardem

em 21/08/2018 • 21h08
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Àquela hora da madrugada, as ruas estavam completamente geladas, escuras e desertas. Ao cruzarmos o Parque de los Periodistas e aproximarmo-nos da estação Las Aguas, não avistamos Leydi Jiménez. Concordamos, diante da impossibilidade de escrever-lhe naquele momento, em esperá-la. Eram 4h30, conforme o combinado. Jesse, Nico e eu, ainda que agasalhados, passávamos frio e, sobretudo, padecíamos de sono.

Na noite anterior, surpreendera-nos no SC House, um albergue para turistas e residência de estudantes de intercâmbio, o convite feito por Leydi, que buscava no hostel apenas estrangeiros para serem figurantes de “Loving Pablo”, que no Brasil recebeu o titulo de  “Escobar – A Traição” e estreia em 23 de agosto.

O terceiro filme do diretor Fernando León de Aranoa, traz Javier Bardem no papel do narcotraficante colombiano,  e  Penélope Cruz como Virginia Vallejo, amante do criminoso e autora do best-seller “Amando Pablo, Odiando a Escobar”, no qual o longa é baseado.

Era inacreditável! Assim como para Jesse e Nico, fazer parte da figuração de “Loving Pablo” representava, para mim, uma rara oportunidade de aparecer em um filme de exibição mundial, contracenar com Penélope Cruz e, a um só tempo, colocar algum dinheiro no bolso por isso.

E não parava por aí: motivava-me o desejo de observar (não por meio de um making-off, mas, pela primeira vez, in loco) os bastidores de um set de gravação. Um prato cheio para um aspirante a jornalista, cinéfilo desde  adolescente. Não se tratava, assim, apenas de um convite, mas de uma proposta irrecusável. O longa começaria a ser rodado em outubro de 2016, somando-se à recente onda de seriados de TV e filmes sobre o maior narcotraficante da história e sua trajetória de crimes e enriquecimento à frente do Cartel de Medellín, ao longo da década de 1980.

 5h

Quando Leidy Jiménez enfim surgiu, eu já quase me arrependera de haver aceitado o convite. Cruzou o Parque de los Periodistas acompanhada de quatro ou cinco estrangeiros que também tomariam parte na figuração de “Loving Pablo”. Desculpou-se pelo atraso e comunicou que o grupo seria dividido em dois táxis até a locação.

 5h30

Ao chegarmos ao Club Militar de Bogotá, uma espécie de clube-hotel fundado em 1956 sob a ditadura do general Rojas Pinilla, ainda não amanhecera. O táxi, com a autorização de um cadete, passou pela cancela da guarita e entrou em um pátio a céu aberto.  Ao descermos, Leydi nos conduziu até um local onde nos serviriam o café da manhã.  Após cruzar o hall de entrada, passamos por um saguão decorado com flâmulas e bandeiras, seguimos por corredores estreitos e entramos em um amplo refeitório onde já estavam outros figurantes estrangeiros selecionados pela produção.

6h30

Reconduzidos ao pátio, guiados desta vez por um espanhol de baixa estatura e gestos afetados, alcançamos um dos setores onde se perfilavam alguns mini-trailers, alguns deles usados como closets que caberiam à figuração do dia. O espanhol alinhou-nos como um pelotão, delegando-nos em seguida nossos respectivos papéis.

A Nico, francês e loiro, coube o papel de militar do Exército dos EUA, e a Jesse, negro norte-americano, o de agente do DEA,  órgão encarregado da investigação e repressão às redes narcotráfico, criado em 1973 pelo Departamento de Justiça dos EUA. Coube a mim o papel de membro da embaixada americana.

Ato contínuo, conduziu-me uma camareira à porta de um dos trailers-closets. Ela me olhou rapidamente da cabeça aos pés, perguntou quanto eu calçava, me entregou um traje social cor de café, uma gravata azul, um par de sapatos e disse apenas: “Pruébalos”.

Depois, disse em espanhol que deveríamos nos barbear, o que não estava previsto no “contrato”. Indiferente às nossas queixas, nos mandou a um salão de beleza improvisado, onde nos deram  lâminas e um pouco de espuma. Confesso que me decepcionava e me enfastiava o papel que me coubera: membro da Embaixada dos EUA?! Antes figurasse como sicário colombiano, em alguma destas cenas de perseguição em moto e tiroteio, repletas de pirotecnia, às quais sempre depreciei.

8h

Outra vez levado ao interior do Club Militar, entabulei uma conversa com um fotógrafo madrilenho, que viera a Bogotá a trabalho e que também fora recrutado, em seu hotel, pela produção.  Quinze minutos depois, nos deram crachás, pranchetas, pastas e papéis, acessórios que compunham, finalmente, nossos disfarces caretas de membros da embaixada. Uma maquiadora, que por ali circulava em uma última inspeção, ainda se deteve ao passar por mim e besuntou meu cabelo com uma espécie de goma.

O cenário achava-se cada vez mais apinhado de gente, ocupado por figurantes, continuístas, maquiadores, operadores de câmera, microfonistas, entre outros membros da equipe cujas funções não distingui. Um destes (que supus assistente de direção) entrou na sala e posicionou os figurantes no espaço. Reuniu quatro deles em círculo, orientou-os a simularem uma conversa durante o tempo em que o plano fosse filmado e espalhou outros dois pelo cenário. Puxou-me, enfim, pelo braço, postando-me junto a uma pilastra: “Você vai começar desta coluna. Só precisa descer as escadas e cruzar com o ator” ordenou-me, indicando-me o referido ator, ao qual não reconheci.

Silêncio no set.

O plano, apesar de curto e simples, foi repetido incontáveis vezes.
Com uma pasta recheada de cópias de documentos da embaixada, ao ouvir “¡Acción!”, eu arrancava, às vezes do lado, às vezes detrás da pilastra, enquanto Peter Sarsgaard (vim a saber, posteriormente, o nome do ator) a subia.

Então eu aguardava no pé da escada, onde já me achava fora-de-quadro, que este trocasse um par de palavras com uma atriz qualquer e… o “¡Corta!”. Logo, eu tornava a subir os degraus e Sarsgaard a descê-los, reposicionávamo-nos e repetíamos ritualmente nossos movimentos.

11h

Concluída a última tomada, o assistente de direção solicitou que nos acomodássemos nas cadeiras do salão de conferências anexo ao cenário e que ali esperássemos o diretor Fernando León de Aranoa  avaliar as cenas gravadas. Aguardamos por cerca de meia-hora (ao longo da qual caí no sono sucessivas vezes) pelo parecer do cineasta, que dera-se por satisfeito. O assistente passou então à seleção dos figurantes que deveriam acompanhá-lo à filmagem de outros planos. Escolheu (não sei com que critério) aproximadamente um terço do total ali presente e declarou, em seguida, que os demais estávamos dispensados. Antes de deixar o Club Militar, bastaria regressar ao refeitório, onde receberíamos nosso pagamento, e ao vestiário, para a troca de roupas.

11h30

No refeitório, reencontrei Nico e Jesse.

Ambos seguiriam no Club, convidados a integrar mais cenas do filme ao longo da tarde. Já almoçavam em uma das mesas. Me juntei a eles a fim de compartilharmos nossas aventuras recentes.

Nico, no papel de militar do Exército dos EUA, filmara em uma sala de reuniões reiteradas tomadas na qual, com uma miniatura de aeroplano em mãos, apontava pontos de ataque sobre um mapa da Colômbia. E Jesse, agente do DEA, gravara com ninguém-mais-ninguém-menos que Penélope Cruz, rindo-se de nossa inveja.

Fui até uma das mesas do refeitório na qual se achava Leydi Jiménez, responsável pelos pagamentos. Ela sacou de sua pochete os 90 mil pesos (cerca de R$ 130) do cachê e um auxiliar, postado a seu lado, riscou-me o nome da “lista de pagos”.

Meio-dia

A caminho do estacionamento, cruzei com duas adolescentes que me pediram para fotografá-las com Peter Sarsgaard. Sentado em um banco de pedra, parecia meditar, alheio ao sol que lhe incidia na fronte. Supus que ali, longe do set de gravação, ele se concentrava para a gravação de alguma cena vindoura. “Com licença… Pode tirar uma foto com as garotas?”. Ele esboçou ligeiro sorriso e assentiu com a cabeça. (Não creio que me reconheceu como o figurante com o qual, instantes antes, cruzara repetidas vezes ao subir e descer uma escada.)

Ser figurante e extra’. O figurante, quando camuflado em meio à multidão, escondido no fundo de um quadro ou eclipsado pela presença do ator principal, parece cumprir, em uma película, papel meramente decorativo. Exatamente como um afresco ou uma cerâmica.

Não é, porém, o figurante um objeto. À diferença deste, é seu dia marcado pela espera, pela repetição, pela imprevisibilidade e pela fantasia, minado, finalmente, por uma maior ou menor frustração ou quebra de expectativa.

Alguns meses após as gravações, escrevi a Leydi Jiménez, questionando-lhe se ao menos nossos nomes apareceriam nos créditos do filme. Ela me respondeu: “Os nomes dos figurantes vão aparecer, mas figurantes são os que falam, os que têm texto no filme. Os que somente aparecem, assim como você, se chamam ‘extras’. E o nome dos extras não vão aparecer, por que são muitíssimos. O meu nome também não aparece. Só está nos créditos os papéis importantes do longa”.

“Somente […]os papéis importantes […]”, disse-me.

Eis a razão, afinal, pela qual o presente testemunho se justifica. Razão pela qual se escreve e, em última instância, se publica uma crônica: para tornar protagonista o figurante extra, este ser anônimo (sem nome) e mudo (sem voz) que, de outra maneira, não seria notícia.

* Crônica originalmente publicada no livro Nos bastidores de Escobar & outras crônicas bogotanas (Crivo Editorial, 2018). Para efeitos de edição, o texto acima foi adaptado.‎

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