‘Não descarto uma possível guerra civil na Venezuela’
Análise

‘Não descarto uma possível guerra civil na Venezuela’

O sociólogo venezuelano Edgardo Lander diz que tanto setores governistas quanto da oposição buscam saída violenta para a crise; ele não teme intervenção militar dos Estados Unidos, mas afirma que governo dos EUA interveem no país desde Chávez

em 31/08/2017 • 10h00
compartilhe:  

A crise da Venezuela, com incremento da violência e do autoritarismo, pode gerar uma guerra civil. Esse é o principal temor do  sociólogo venezuelano Edgardo Lander, um dos mais respeitados intelectuais da esquerda latino-americana, que concedeu uma entrevista exclusiva à Calle2.  Segundo ele, tanto governo quanto oposição têm buscado saídas violentas, como o uso de franco-atiradores nas manifestações, de grupos paramilitares ligados a setores governistas e também da oposição.

Para Lander, as ameaças que o país enfrenta vão além da intervenção militar dos Estados Unidos ˗ feita por Donald Trump em um de seus discursos ˗, mas passam também pela busca de isolar o país internacionalmente e pelo apoio aos setores mais extremos da direita opositora. “Já declararam mais de uma vez que não descansariam até que Maduro seja derrubado”, lembra.

Sociólogo e professor aposentado da UCV (Universidade Central da Venezuela), Lander organizou o Fórum Social Mundial 2006 em Caracas e, atualmente, é pesquisador do Transnational Institute, um think tank internacional de políticas progressistas. Ele acredita que a oposição venezuelana busca uma saída violenta para a situação pois visa uma “derrota do imaginário popular emancipador que se construiu nos anos do processo bolivariano. Querem diminuir essa experiência, buscam um culpado que sirva de exemplo não só para a Venezuela, mas para toda a América Latina”, sinaliza.

O especialista diz ainda que a saída da Venezuela do Mercosul, no momento em que países como Brasil e Argentina vivem guinadas à direita, pode ser estratégica para o bloco “avançar na agenda neoliberal sem obstáculos”. Confira a entrevista completa:

Trump chegou a fazer uma ameaça militar a Venezuela. Você crê que há risco de conflito no país?

Não acredito, que no momento, seja provável uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, mas essa não é a única ameaça.

O governo dos EUA, desde o começo do processo bolivariano, está intervindo diretamente na Venezuela buscando isolar o país internacionalmente e apoiando política e financeiramente os setores mais extremos da direita opositora.

Já declararam uma e outra vez que não descansariam até que Maduro seja derrubado. As ameaças de Trump são as mesmas com outro estilo.

Em um informe, a ONU denuncia uma violação sistemática dos direitos humanos por parte das forças do regime. As manifestações contra o governo Maduro já alcançaram 120 mortos, incluindo a suspeita de franco-atiradores. O recrudescimento dessa violência pode jogar o país em uma guerra civil?

Nos últimos meses, tem se produzido, com efeito, um incremento alarmante da violência no país. Não é, sem dúvida, uma violência que pode atribuir-se exclusivamente à representação governamental. Houve muita repressão, e em uma escala muito maior do que havia ocorrido anteriormente. Mas igualmente, a par de mobilizações massivas e pacíficas da oposição contra o governo, grupos radicais da direita levam a cabo muitos atos violentos. Foram queimadas instalações públicas de saúde e educação, assim como unidades de transporte público. Houve a operação de franco-atiradores, grupos paramilitares que atuam em ambos os lados.

Os riscos de aumento da violência não residem apenas na possibilidade de produzir um efeito não desejado pelas cúpulas do governo e da oposição. Há, tanto do lado do governo quanto da oposição, setores que buscam uma saída violenta.

Alguns dos setores mais corruptos da hierarquia governamental parecem dispostos a defender suas fortunas mal adquiridas, não importa o custo em sangue. Além disso, alguns dos setores mais extremos de direita não buscam simplesmente sair do governo Maduro e desconsiderar a Constituição de 1999.

Não bastaria a derrota eleitoral do governo.

Buscam, ao contrário, a derrota do imaginário popular emancipador que se construiu nos anos do processo bolivariano. Querem diminuir essa experiência, buscam um culpado que sirva de exemplo não só para a Venezuela, mas para toda a América Latina. Isso exige uma saída violenta.

Nestas condições, quando há interesse de dois lados alimentando o fogo com gasolina, não é possível descartar de tudo a possibilidade de uma guerra civil.

Qual é a saída para a crise em sua avaliação? O que é preciso ser feito para deter a violência?

Para frear a violência é necessária a reinstitucionalização do país pela via do reconhecimento, por todos, do único instrumento com o qual se conta como regras do jogo para processar as diferenças. Esse instrumento é a Constituição de 1999. A Constituição que vem sendo violada sistematicamente tanto pelo governo quanto por setores da oposição.

É indispensável neste sentido um cronograma preciso para a realização de eleições de governadores, de prefeitos e depois de presidente da República. Igualmente, seria indispensável a recuperação do caráter de juiz confiável que o Conselho Nacional Eleitoral teve em anos anteriores e que deixe de atuar como executor direto dos desejos do Executivo.

Você comentou, em uma entrevista recente, que com a aprovação da nova Constituinte dando plenos poderes ao governo a Venezuela entraria em um “ponto de não retorno”. O que quer dizer com isso?

A convocatória da Assembleia Constituinte se realizou basicamente à margem das normas constitucionais. As bases de comitês para essa eleição consistiram em uma engenharia eleitoral enganosa desenhada expressamente para converter a minoria que hoje apoia o governo de Maduro em uma maioria na Assembleia Constituinte. Com a nova Assembleia Constituinte (100% madurista) instalada se atribuiu poderes absolutos, supraconstitucionais. Esta Assembleia opera como poder legislativo, judicial e executivo sem contrapeso algum. A maior parte de suas decisões se tomam sem debate, por unanimidade ou por aclamação. Essa assembleia já decidiu assumir todas as principais atribuições da Assembleia Nacional, hoje nas mãos da oposição.  Algumas das normas que anunciam são realmente preocupantes, como por exemplo, a sentença a 25 anos de prisão a quem “incite o ódio”.

Estamos em uma nova etapa do processo político venezuelano. A Constituição de 1999 tem sido, de fato, deixada de lado. Diante desta concentração total do poder por parte da Assembleia Constituinte serão, com certeza, difíceis os caminhos para recuperar a democracia.

Como avalia a suspensão da Venezuela do Mercosul? Que impactos têm isso para a Venezuela, para o bloco e para a América Latina? Como você vê o tratamento que os países latinos dão à Venezuela? Há maneira de os vizinhos ajudarem?

As formas como os países da América Latina têm reagido diante dos acontecimentos da Venezuela tem a ver tanto como o que ocorre na Venezuela como com os deslocamentos à direita que têm operado no continente recentemente. Trata-se de uma forte ofensiva continental, plenamente respaldada pelo governo de Trump, para reverter todas as mudanças que se haviam iniciado durante a fase política anterior. Dado o papel que jogou a Venezuela nestes tempos “progressistas”, a derrota do governo de Maduro se converte em um objetivo político de primeira ordem.

O que é indispensável destacar é que o efeito desta ofensiva contra o governo venezuelano tem pouco a ver com a suposta defesa da democracia que esses governos erguem como bandeira de forma cínica.

De que democracia se fala quando, por exemplo, de acordo com Jan Jarab, representante no México do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, nos anos recentes “a cifra de desaparecidos (no México) chegou a 30 mil pessoas, mais os que não são contados pelas estatísticas; estamos falando de muito mais” (La Jornada, 7 de agosto, 2017).

Esses mesmos governos continuam reprimindo de forma sistemática ativistas populares e indígenas apenas pelo seu direito de defender seus territórios do avanço depredador das atividades mineiras e agroindustriais.

A maioria dos governos atuais da América Latina têm pouco que aportar em termos de diálogos e de soluções à profunda crise humanitária que vive a Venezuela. Estão comprometidos com os Estados Unidos na política de “mudança de regime”.

Por outro lado, com esses deslocamentos à direita, dos governos do Brasil e Argentina, mudam as prioridades do Mercosul e se buscam acordos de livre comércio com a União Europeia e os países do eixo do Pacífico da América Latina. A presença da Venezuela significaria um estorvo para essas negociações. Sem a presença da Venezuela, se pode avançar na agenda neoliberal sem obstáculos.

Você também comentou que Maduro está governando em estado de exceção e à margem da Constituição. Além disso, há um aumento da violência, da repressão e do número de presos políticos. Você considera que a Venezuela vive uma ditadura?

O que não me deixa dúvida é que o governo de Maduro está, passo a passo, caminhando para uma trilha cada vez mais autoritária em que o pluralismo, o debate e a democracia se encontram cada vez mais restritos.

Há integrantes do MUD (partido de oposição a Maduro) que dizem ser chantageados pelos setores financiados e impulsionados pela política dos Estados Unidos e que não sabem como liberar-se desta chantagem. Além disso, a Venezuela tem uma história de tentativa de golpes.

Você crê que os Estados Unidos podem estar pensando em interferir de alguma maneira na Venezuela, com interesses escusos pelo petróleo?

A oposição venezuelana é muito heterogênea. O que a une é o enfrentamento ao governo bolivariano. Apesar dessas diferenças internas, os setores mais extremistas conseguem impor sua política de confrontação aos demais setores com a chantagem de que o contrário é fazer o jogo “da ditadura”. Há nesses setores, inclusive, vozes que celebram a ameaça de intervenção militar por parte do governo Trump. Agora, sobre se os Estados Unidos estão pensando em intervir de alguma maneira na Venezuela, como disse antes, o governo dos Estados Unidos não deixou de intervir em nenhum momento desde que Chávez chegou a presidência no ano de 1999.

Confira a entrevista que Lander deu a Calle 2 em dezembro de 2015 (às vésperas da eleição da Assembleia Nacional no país): https://calle2.com/eleicoes-e-crise-na-venezuela

‎FOTO: Carro incendiado em manifestação contrária ao governo de Nicolás Maduro

Comentários

Comentário