Líder das pesquisas, candidato da esquerda no México luta para convencer o mercado
Análise

Líder, candidato da esquerda no México luta para convencer o mercado

Com 12 pontos à frente do segundo colocado, Obrador tenta se equilibrar entre os anseios revolucionários e empresários temerosos com o futuro

em 19/06/2018 • 14h54
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Três décadas atrás, a ativista Teresa Jaber, que lidera o movimento social Unidos y Organizados, no estado mexicano de Tabasco, conta que entrou numa reunião política clandestina na cidade de Tepetitán, na mesma região, para ouvir um homem conhecido como “Amlo” pregar uma revolução no país. “Eu lembro dele dizendo: “o país não pode continuar sendo a propriedade pessoal de quatro ou cinco pessoas'”, relatou em entrevista ao jornal El Heraldo de Tabasco. Jaber também não esquece da frase final daquela reunião em 1987. “Eu vou ser presidente do México”.

Trinta anos depois, a previsão pode estar se realizando: com o país indo às urnas para eleger seu próximo presidente no dia 1 de julho, “Amlo” – sigla de Andrés Manuel López Obrador – é o líder isolado nas pesquisas de intenção de voto. Ele é o nome da coalização chamada Juntos haremos historia, formada pelo seu Movimiento de Regeneración Nacional (Morena) e por dois outros partidos: o Partido del Trabajo (PT) e o Encuentro Social (PES).

Segundo dados do instituto de pesquisas mexicano Mitofsky, Obrador tinha 32,6% das intenções de voto no final de maio, 12 pontos porcentuais à frente do segundo colocado, o advogado Ricardo Anaya. Atrás deles estava o ex-ministro da Economia do país, Jose Antonio Meade, da base governista liderada pelo Partido Revolucionario Institucional (PRI).

Em abril, a vantagem era de 10.9 pontos: “Amlo” tinha 42%, Anaya estava com 31,1% e Meade, 21,9%, de acordo com a pesquisa da Berumen y Asociados em parceria com o jornal mexicano El Universal. Os dados ainda mostram que Obrador era a segunda preferência de outros 16,5% de eleitores naquele mês.

A plataforma de monitoramento de redes sociais CrowdTangle publicou também em abril que Obrador era o candidato que mais crescia na internet: tinha aumentado em 40% seus seguidores no Facebook, 54% no Twitter e 27% no Instagram.

Desde que a campanha presidencial começou, no mesmo mês de abril, “Amlo” prega a retomada do controle da indústria petrolífera mexicana, sugere a anistia para pessoas envolvidas na guerra às drogas no país e desafia as “máfias” e os poderosos do país – mensagem que se espalhou e encontrou apoio em uma nação cuja elite política está desmoralizada por conta dos escândalos de corrupção recentes.

“Seu programa de governo não tem nada de radical. É uma proposta econômica sensata, talvez com uma ênfase no público e na regulação do mercado que não foi habitual nas últimas décadas no México. Mas isso não quer dizer que seja algo radical ou extremista”, acredita Homero Galán, cientista político da Universidad Nacional Autónoma (UNAM).

Os oposicionistas, por sua vez, o pintam como um “novo Hugo Chávez”, dizendo que as ideias “antiquadas” do candidato podem levar o México à ruína econômica. “Ele acredita em um nacionalismo fora de moda. Um estatismo ultrapassado. Um protecionismo fora de moda”, disse Jorge Castañeda, um dos dois chefes da campanha de Anaya e ex-ministro das Relações Exteriores do país. “Ele é um homem suficientemente pragmático e inteligente para entender que não pode fazer um monte dessas coisas? Sim. Mas o que ele faria se ele pudesse?”, completou Castañeda, em entrevista ao periódico estadunidense New York Times. Em janeiro, Castañeda publicou um artigo na mesma publicação chamando-o de “populista”.

Para o historiador mexicano Carlos Illiades, autor de livros sobre o movimento proletário no país e professor da Universidad Autônoma Metropolitana, a vantagem de Obrador se explica por sua postura no início do atual governo, quando o presidente Enrique Pieña Nieto criou o “Pacto por México” com vários partidos e movimentos que, depois, apareceriam em escândalos de corrupção. Obrador, um crítico da “elite do poder” no México, não teve o nome sequer arranhado pelas denúncias. Illiades acredita, porém, que “Amlo” é um “esquerdista conservador”.

“É seu maior paradoxo: creio que ele é de esquerda porque reivindica a justiça social, o que é inegável. Mas ele é conservador porque não dá relevância aos novos direitos, como os das minorias. Não as critica, mas também não as favorece”, disse ao NY Times.

Obrador procurou amenizar os temores em torno de sua candidatura nomeando um time de altos especialistas para seu gabinete e prometendo aos empresários mexicanos que não vai expropriar nem nacionalizar nada caso vença. Dar garantias ao mercado, aliás, tem parecido uma obrigação da sua campanha.

No fim de maio, ele se encontrou com o presidente-executivo da consultoria de fundos internacional BlackRock, Larry Fink, afirmando que, em caso de vitória, manterá um “autêntico Estado de direito” – um recado direto aos investidores e ao mercado. Dias antes, cercado de repórteres e de gritos de “presidente” em Guadalupe, no estado de Nuevo León, o candidato disse que não é contrário à iniciativa privada e, para surpresa de todos, ergueu um lenço branco tirado do bolso. “Para eles meu reconhecimento, amor e paz”, dizia em meio aos risos dos jornalistas.

Antes, no começo de maio, quando a campanha começava a esquentar, “Amlo” afirmou que os empresários mexicanos haviam se unido com seu adversário, Ricardo Anaya, para fazer frente à sua candidatura. Ele chegou a denunciar uma possível intervenção do mercado no processo eleitoral mexicano. A declaração não pegou bem: quando uma pesquisa divulgou sua liderança naquele mês, o peso caiu 5% frente ao dólar.

Obrador responde as críticas com frases feitas. “Se esse horror que nós estamos vivendo agora é o que eles querem para nós no futuro, o passado é preferível”, disse ele em um debate em abril. À medida que julho se aproxima, a resposta dos eleitores mexicanos à campanha de medo dos empresários faz com que se intensifiquem as operações para evitar que Obrador chegue ao poder. “Essa é a alternativa errada para o México. Ele é obsoleto, velho e está cansado. Está cercado de malucos e tem ideias antigas”, criticou Castañeda recentemente em um dos ataques mais fortes da campanha.

Para Homero Galán, porém, a estratégia não está dando certo. “A ‘campanha de medo’ contra ele não encontra mais recepção: a população viu que todos os ‘perigos’ que se anunciavam em caso de triunfo da esquerda se materializam, na verdade, com os governos de outros partidos. Além disso, é indiscutível que “Amlo” pode afinar suas propostas e sua imagem agora, aprendendo com os erros do passado e conseguindo se apresentar como um político profissional e sereno”, opina.

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Uma breve história. A história de Andrés Manuel López Obrador começou na cidade de Tepetitán, no estado de Tabasco, a quase 900 quilômetros da Cidade do México, onde ele nasceu em novembro de 1953. Hoje, um busto do filho mais famoso da cidade fica à frente de uma das casas em que viveu na infância, com uma placa escrito: “El rostro de la esperanza”. Apelidado de “El Peje” (“O Peixe”), Obrador trabalhou na loja de roupas do seu pai quando era adolescente ao lado do irmão mais velho, José Ramón, que morreu acidentalmente depois de atirar em si mesmo sem querer.

Ele se tornou politicamente ativo nos anos 1970, quando se mudou para a região de Nacajuca, ao norte da capital de Tabasco, Villahermosa, onde viviam os indígenas Chontal Maya. Lá, passou a trabalhar como representante local do Instituto Indígena Nacional, uma espécie de Funai do México.

No livro Amlo, con los píes en el solo, o jornalista José Agustín Ortiz afirma que Obrador assumiu o cargo como se ele fosse o seu “destino”. “Ele passou a viver como uma família indígena vivia”, conta em um trecho da obra. A biografia ainda relata que, durante o período em Nacajuca, Obrador dormia em redes junto com sua família e enfrentava temperaturas acima dos 40°C. “Essa experiência acendeu um ‘fogo interior’ dentro daquele jovem tabasqueño e o tornou determinado a ver o México ser governado pela maioria, não por poucos”.

Ao menos entre os indígenas, aquele período de Obrador gerou um eleitorado cativo. Segundo os dados, dos 25 milhões de nativos vivendo no país, 7 milhões vão às urnas em julho. A maioria deles está com “Amlo”. No México, cabe lembrar, o voto é obrigatório.

À época de sua atuação com os indígenas, Obrador chegou a participar de protestos em frente aos escritórios da Pemex, a gigante estatal de petróleo mexicana, pedindo compensações financeiras às comunidades camponesas e nativas que tiveram seus territórios poluídos pelas operações.

O primeiro cargo político de relevância de Obrador, no entanto, veio apenas em 2000: ele ganhou as eleições para ser chefe de governo da Cidade do México, àquela época já a maior metrópole latino-americana, pelo Partido de la Revolución Democrática (PRD). A campanha da vitória tinha como lema a frase “Ponha os pobres primeiro para o bem-estar de todos”.

Sua administração se mostrou popular: o governo subsidiou a construção de linhas de metrô, criou programas de assistência financeira para idosos e mães solteiras e construiu vias elevadas para diminuir o trânsito da cidade. Os críticos já o condenavam por populismo, mas passaram a copiar suas políticas em outras cidades mexicanas. De acordo com um perfil publicado em 2005 por um sociólogo, ele organizava entrevistas coletivas todas as manhãs para contestar as reportagens dos jornais do dia. Naquele mesmo ano, foi retirado do cargo pelo parlamento por um processo de desacato judicial a uma ordem contra a expropriação de um imóvel na capital.

Nas eleições seguintes, porém, em 2006, a esquerda venceu as eleições na Cidade do México com os pés nas costas: Marcelo Ebrard (PRD), candidato de Obrador, venceu por 47% dos votos, contra 27% do segundo colocado, Demetrio Sodi, do PRI.

Com o sucesso na capital, Obrador passou a olhar para o último prêmio possível de sua carreira política: a presidência. Em 2006, na sua primeira tentativa, perdeu por pouco para Felipe Calderón (35,91% a 35,29%), e depois chegou a alegar que foi vítima de fraude eleitoral, liderando uma ocupação de meses em um dos corações políticos da Cidade do México. No começo daquela campanha, o cenário era parecido com o de agora: lideranças com folga nas pesquisas de opinião.

Em 2012, na segunda tentativa de chegar ao Palácio Nacional, nova derrota: Enrique Peña Nieto venceu com 38,20% dos votos contra 31,57% de Obrador. Desde então, ele passou a construir uma imagem mais moderada, que atraiu camadas pobres, mas afastou radicais e partidos comunistas, como Jaber. “Ele não é mais o revolucionário de outrora”, diz ela. No Brasil, o Portal Vermelho, do PCdoB, recentemente afirmou que o programa econômico de Obrador é “viável” e “sustentável.

Illiades, de fato, acredita que, se Obrador vencer agora, será uma demonstração empírica de que as eleições no México não sofrem interferência do governo. “O melhor para a democracia mexicana é que a esquerda chegue ao poder por via eleitoral, porque assim se perde a desconfiança histórica dos mexicanos nas eleições”, disse.

Para Homero, mais do que a segurança institucional, “Amlo” significa os anseios de uma sociedade cansada dos mesmos governantes. O PRI governa o México desde 1929, quando surgiu com o objetivo de encerrar a luta civil do início do século. “Diferente das outras eleições, existe uma insatisfação generalizada no país com as outras opções políticas principais (PRI e PAN), porque, entre outras coisas, ficou demonstrado aos olhos da população o mal governo que elas realizaram”.

No México, as críticas dos entusiastas de sua candidatura vão em direção à presença do Encuentro Social (PES) na coalização – o grupo de direita rechaça o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Revolucionário ou não, conforme as eleições se aproximam os analistas mexicanos se convencem ainda mais que ele é já ganhou o cargo. “Só um milagre o impedirá de governar o México”, afirmou Illiades. “A crise de valores e de confiança nacional é muito grave. Por tudo isso, creio que é o momento de viver uma mudança”, finaliza Galán.‎

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