Minha experiência com o kambô, caxiri e ayahuasca
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Kambô, caxiri e ayahuasca

Na Amazônia, vivi experiências transcendentais. E, muitas vezes, perdi o controle, enquanto os índios riam de mim, num deboche até compreensível – diante da natureza, somos pequenos

em 29/04/2016 • 08h55
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Todo dia 19 de abril, as crianças saem da escola com uma pena de cartolina na cabeça, as redes sociais se entopem de fotos lindas com indígenas em seu melhor ângulo, tem matéria no Jornal Nacional com tom de propaganda da Coca Cola e todos cantarolam a emblemática música de Baby Consuelo: “Todo dia era dia de índio…”

Lembro como se fosse hoje o “dia de índio” que vivi com maior intensidade. Foi no Acre, na pequena e pacata cidade de Cruzeiro do Sul, próxima à divisa com o Peru.

No ginásio da cidade, havia uma celebração do dia 19 de abril. Quando entrei, me deparei com uma quadra poliesportiva lotada de índios de diversas etnias dançando e cantando. Cada etnia puxava um canto e todos acompanhavam dançando e suando. Ver aqueles povos cheios de energia e orgulho me encheu o coração. Ficava arrepiada a cada canto e, claro, entrei na roda.

De lá sai com novos amigos da etnia Katukina e fui passar alguns dias na aldeia Campina. Experimentei o rapé deles e passei por uma noite de pajelança tomando ayahuasca, bebida psicoativa usada em rituais. Quando fez efeito, senti o chá dominando meu corpo e meus pensamentos. Me senti pequena diante do ayahuasca…

Fui então acordada às 5h da manhã. Eles tinham uma rã na mão e me disseram: “— Tem que tomar kambô para tirar panema!” Eu pedi que falassem português. E eles repetiram: “— Tem que tomar kambô para tirar panema!”.

Kambô?? Panema??

Kambô é a vacina de sapo. Na verdade, a secreção de uma determinada rã que é aplicada na pele. Em contato com a epiderme, ela faz a corrente sanguínea começar a trabalhar em uma velocidade máster, o coração quase explode e a gente fica com a cara meio deformada, parecendo um sapo mesmo. Depois vem o vômito e diarreia. A partir desta “limpeza”, eles consideram que estamos fortes, livres de toxinas e da ‘panema’, que é o estado de preguiça, às vezes confundido com depressão.

Percebi ali que muitos índios adoram nos ver em situação ‘desconhecida’ para nós (e familiar para eles). Se divertem com nosso desconhecimento, medo e receio. Como se fosse uma brincadeira marota, uma inocente pequena vingança. Um deboche. Como se dissessem: “Vocês, brancos, acham que dominam tudo? Acham que controlam a natureza? Acham que controlam o mundo? Vejamos…”

‎Outra vez, em uma região conhecida como Cabeça do Cachorro, no alto Rio Negro, estado do Amazonas, passei uns dias em uma comunidade indígena chamada Taracuá. Nesta época eu fazia parte da ONG Vaga Lume e tivemos a oportunidade de implantar bibliotecas naquela região.

Ao fim da nossa temporada de trabalho, fizeram uma festa para nossa equipe. Apresentaram a dança deles e nos serviram Caxiri, uma bebida de mandioca fermentada. Após tomar duas cuias, fui levantar para me servir de comida e percebi o quanto eu estava chapada. Fui comer para não dar baixa. Peguei um pedaço de beiju com alguns legumes fritos que fizeram para nós. Após algumas mordidas, fui reparar que os tais “legumes” eram na verdade formigas fritas. Sem conseguir me conter, cuspi tudo na hora e joguei o prato no chão. A festa parou, todos olharam para mim e… caíram na gargalhada!

Já fui muitas vezes motivo de graça para os índios. Foram situações diversas: cair da rede, ficar atolada em poça de lama, virar a canoa, remar para frente e o barco ir para trás…

Hoje converso com muitos amigos índios pelo Facebook, Whatsapp e Skype. Eles falam comigo em português, com a mãe deles na língua materna, com o vizinho na língua geral e, algumas vezes, se tratando de fronteiras, também com los hermanos em espanhol.

Muitos deles têm o árduo trabalho de resgate de sua cultura tradicional, enquanto nós (visitas eternas no país deles) fazemos o favor de destruí-la.

São mais de 300 etnias indígenas no Brasil, mais de 270 idiomas que somente são lembrados uma vez ao ano. E quanta sabedoria está se perdendo a cada dia 19 de abril…

Fica aqui um apelo: conheça o Brasil e os povos tradicionais indígenas que aqui ainda sobrevivem. Depois me conte se o dia 19 de abril é realmente suficiente para homenageá-los.

foto por: Sérgio Vale (inclui foto da capa)
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