Filho da revolução chega ao poder em Cuba
Análise

Filho da revolução chega ao poder em Cuba

Pregando continuidade, novo presidente não deve fazer ruptura ou oposição ao governo dos Castro

em 26/04/2018 • 23h46
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A indicação de Miguel Díaz-Canel, primeiro vice-presidente do Conselho de Estado de Cuba, como o sucessor de Raúl Castro no governo cubano encerrou um ciclo de quase 60 anos. Pela primeira vez desde a Revolução Cubana, o país estará a cargo de alguém que não faz parte da família Castro. O novo presidente, no entanto, não significa uma ruptura ou oposição ao governo de Fidel e Raúl.

Miguel é pessoa de confiança de Raúl Castro, que irá seguir como presidente do Partido Comunista Cubano e das Forças Armadas ao menos até 2021, postos que garantem importante poder político (alguns analistas consideram, inclusive, que ao se manter nestes cargos, ele segue como a liderança política do país dada a importância destas posições), aconselhando o primeiro presidente nascido após a Revolução Cubana, encerrada em 1959.

Díaz-Canel é um homem alto de vastos cabelos grisalhos, corte militar e perfil discreto. Apesar de falar pouco em público, o que dificulta saber o que pensa o atual presidente de Cuba, é possível encontrar pequenas pistas de como enxerga as relações futuras entre seu país e os Estados Unidos, principal ponto de interesse da política internacional.
Em vídeo de uma atividade interna com membros do Partido Comunista, publicado pelo jornal Miami Herald no ano passado, Díaz-Canel fala sobre como os EUA devem acabar com o embargo para que sejam iniciadas novas relações. “O governo norte-americano invadiu Cuba, impôs o bloqueio e medidas restritivas. Cuba não queria nada disso”, afirma na gravação, emendando: “eles têm que resolver essas assimetrias se quiserem relações.”

A gravação mostra que não existe resistência por parte do presidente cubano em estabelecer relações políticas com o governo estadunidense, porém, segundo matéria da Folha de S. Paulo, em encontro com familiares de combatentes da revolução, Miguel criticou a postura da potência vizinha ao querer a qualquer custo “restaurar o capitalismo selvagem” em Cuba com suas “receitas de modelo neoliberal”.

Mesmo assim, Díaz-Canel lamenta a eleição de Donald Trump nos EUA, pois dificulta qualquer tipo de diálogo com Cuba. O presidente estadunidense ordenou no final do ano passado a expulsão de 15 integrantes da embaixada cubana no país, alegando retaliação após integrantes da diplomacia norte-americana em Cuba terem sido atacados por uma possível arma sônica que casou perda de audição e visão, tontura e problemas de concentração em cerca de 21 pessoas. Somado a isso, existe a política de restrição de viagens de americanos a Cuba, que havia sido flexibilizada por Barack Obama e foi revista no governo Trump.

Outro ponto que pode ser apontado como parte da política de Díaz-Canel é sua posição sobre a participação do povo nas decisões políticas da ilha. Para o presidente, “o povo participará das decisões que o governo tomará e também poderá tirar quem não cumprir suas responsabilidades. Além disso, ressaltou que em seu governo os laços com a população cubana serão fortalecidos: “precisamos ter ênfase nos laços, nos vínculos com o povo, ouvi-lo, investigar profundamente os problemas existentes e inspirar o debate sobre eles.”

Apesar do tom diferente do governo anterior, são poucos os cubanos que veem o atual presidente como capaz de implementar as mudanças necessárias. Além da confiança depositada por Raúl nele, o discurso de posse mostrou que o novo presidente defende a continuidade do sistema de partido único cubano e da centralização da economia, pontos políticos delicados e que setores da população entendem que deveriam ser revistos no país

“Nesse mandato não há espaço para mudança brusca, apenas para a continuidade do modelo socialista cubano”, disse, durante o discurso.

A posse de Díaz-Canel foi transmitida pela TV, mas havia pouca comoção nas ruas para acompanhar a transição de governo. Podia ser notado na própria mídia cubana, toda controlada pelo Estado, que a troca no Conselho, nem mencionava a saída de Raúl. A ausência de perspectiva de que a substituição de Raúl trará qualquer tipo de mudança pode ser o principal fator dessa sucessão não ser vista pela população cubana como um evento singular, mas como parte da burocracia governamental. Não por coincidência, a principal movimentação da Assembleia Nacional nas redes sociais, girava ao redor da hashtag #SomosContinuidad (somos continuidade).

O novo presidente nasceu em Santa Clara, capital da província de Villa Clara, localizada no centro de Cuba. É formado em Engenharia Eletrônica e ingressou aos 22 anos nas Forças Armadas Revolucionárias, onde serviu por três anos antes de retornar à universidade como professor e ingressar na UJC (União de Jovens Comunistas) local. Tornou-se membro oficial do Partido Comunista em 1993. Em 2009 chega à Havana, já como ministro da Educação Superior. Sua nomeação para o cargo que o tornaria elegível como presidente se deu em 2013, ao ser nomeado Primeiro Vice-Presidente do Conselho de Estado, o primeiro de sua geração a atingir este posto. O anúncio como novo presidente, em 19 de abril, ocorreu um dia antes de completar 58 anos.

O futuro de Cuba: socialismo ou capitalismo? A opinião do povo cubano sobre o que representa hoje o seu governo pode ser considerada controversa. O imaginário popular costuma ter uma visão conflitante sobre o que significa o governo comunista, sendo atraída igualmente tanto para o campo da admiração quanto para o da repulsa. Enquanto para alguns, a sociedade cubana é um brilhante exemplo de resiliência perante o imperialismo capitalista, em especial frente aos Estados Unidos, para outros, ela é exemplo da ineficiência do governo comunista e prova de que sua utopia se torna inaplicável.

Na verdade, o destino de Cuba não é tão incerto quanto alguns especialistas gostariam de apontar. Tudo indica que Miguel Díaz-Canel será a mais perfeita linha de continuidade do projeto revolucionário cubano, porém com uma cara mais “palatável”, enquadrada no mundo moderno de presidentes “gestores”, como Emmanuel Macron na França ou Trump nos EUA. Eles foram eleitos como contraponto à velha política, porém, seguem a mesma cartilha de quem estava no poder.

No caso de Díaz-Canel não será diferente. Visto por muitos como um tecnocrata (indivíduo de formação técnica que ocupa o poder executivo, privilegiando os aspetos técnicos-burocráticos, em detrimento dos aspetos sociais e humanos), o atual presidente de Cuba é o “novo” na política cubana. Dessa vez, sem o peso de ser uma figura militar e que pode ser identificado inclusive com a elite que se refugiou em Miami após a Revolução Cubana em 1959.

Alguns analistas o veem aplicando de forma mais acelerada a abertura do mercado cubano para a economia mundial. O processo se iniciou de forma gradual em 2010 no início da gestão de Raúl Castro e se tornou mais intenso em 2016 com a aproximação do governo Obama. Apesar das declarações do governo cubano sobre uma “atualização do socialismo”, nenhum passo dever ser dado fora do plano iniciado por Fidel, continuado por Raúl e agora Miguel. Não existe assim um cenário imediato de retorno de Cuba ao capitalismo, porém pode sim haver espaço para negociações mais abertas com o mercado mundial. Miguel Díaz-Canel é hoje o homem que põe fim à era Castro e, ao mesmo tempo, aquele que melhor dará continuidade a ela.

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