Verdades latinas: menos ditadura, mais documentários sobre pessoas 1
Cultura

Festival mostra renovação dos documentários latinos

Produções que serão exibidas no “É tudo verdade” deixam de lado relatos sobre ditaduras e focam em pessoas

em 10/04/2018 • 22h18
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A produção de documentários na América Latina se renovou e se sofisticou na última década. Se antes as produções eram muito focadas em momentos históricos do continente e nas ditaduras e golpes, agora há mais variedade temática.

“A renovação estilística bateu na América Latina na última década. Com a sofisticação da linguagem, os documentários abandonam o didatismo e produção histórica, deixando de lado temas como direitos humanos e ditadura e ganham uma variedade temática maior, com foco em fazer retratos de pessoas”, avalia Amir Labaki, diretor do Festival “É tudo Verdade”, que acontece de 12 a 22 de abril em São Paulo e no Rio de Janeiro. E complementa: “O cinema argentino conhecido por seus roteiros interessantes na ficção não tinha o mesmo caminho na produção da realidade”, compara.

A mudança é retratada na temática dos filmes que são exibidos no festival em 2018 que retratam pessoas e contam suas memórias. “A cada ano há essa variação. Nessa edição, há produções sobre como o passado ecoa no presente e sobre cinema e experiências cinematográficas”, destaca Labaki. A Calle2 fez uma seleção dos principais documentários latino-americanos que serão exibidos; confira também produções nacionais e de outros continentes.

Entre os filmes selecionados para a edição de 2018 estão “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, sobre o impeachment de Dilma Rousseff, que “traz um olhar novo sobre imagens que já vimos”; “Che, memórias de um ano secreto”, de Margarida Hernandez, que conta sobre o ano em que o líder latino-americano sumiu; “Ex-pajé” (foto), de Luiz Bolognesi, história de um povo indígena que perdeu o pajé, após o contato com o homem branco; “Adoniran, meu nome é João Rubinato”, de Pedro Serano, com a biografia do cantor paulistano; “Carvana”, a biografia do ator Hugo Carvana, de Lulu Corrêa, “Tetê”, de Clara Lazarim, um curta com a biografia da cantora Tetê Espíndola.

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Filme sobre impeachment de Dilma Roussef é um dos destaques do festival

Questionado sobre a baixa presença de diretoras entre os filmes selecionados, Amir diz que o festival é espelho da produção que recebe. “A presença feminina é crescente. No júri e na seleção sempre tivemos muitas mulheres. Entre os filmes isso vem aumentando”, justifica. Com apenas dois negros na coletiva de imprensa, a presença de diretores negros não é questionada pelos jornalistas. Pergunto sobre o tema por e-mail, mas as repostas não vieram.

Com orçamento menor, o festival diminuiu nesta 23ª edição em que vai exibir 55 filmes, ante 82 no ano passado, “mas não está menos vigoroso”, garante Amir. E esclarece não haver dificuldade em atrair o público, mas lembra que, tirando o “É Tudo Verdade”, há uma diferença imensa na distribuição de filmes ficcionais e documentários. “A batalha é desigual”, considera.

Entre os latinos, serão exibidos: o uruguaio “A Flor da Vida”, de Claudia Abend, que conta história de um casal com 50 anos de casado; o colombiano “Cartucho”, de Andrés Chaves Sánchez, sobre um bairro colonial convertido em escritório do crack; o uruguaio-argentino “Não Viajarei Escondida”, de Pablo Zubizarreta, que conta sobre as viagens da poetisa uruguaia Blanca Luz Brum; o mexicano “Regresso a Origem”, de María José Glender de Mucha, sobre um homem de 60 anos, que sonhando com o paraíso, sai da civilização e vai viver nas montanhas, o chileno “Roubar Rodin”, de Cristobal Valenzuela, sobre o roubo de uma escultura em um museu de Santiago; e o argentino “Amarra o seu arado a uma estrela”, de Carmen Guarini, que acompanha os últimos 25 anos do cineasta Fernando Birri.

Já a retrospectiva vai trazer filmes da diretora guatemalteca Pamela Yates, que se dedica a retratar os direitos humanos e a América Latina.

Serão exibidos os filmes da trilogia que contribuiu para alterar a realidade dos maias que vivem no país. São eles: “500 anos”“Granito” e “Quando as montanhas tremem”.

Além disso, filmes que participaram de edições anteriores estarão disponíveis online de 17 a 22 de abril no site do Itaú Cultural (www.itaucultural.org.br). São eles, “Aboios”, de Marília Rocha, sobre vaqueiros; “Carmen Miranda, banana is my business”, de Helena Solberg, que conta a história da cantora; “Dona Helena”, de Tatiana Toffoli, sobre a violeira Helena Meireles; “Domingos”, de Maria Ribeiro, que traça a trajetória do diretor de cinema Domingos Oliveira; “Os melhores anos de nossas vidas”, de Andrea Pasquini, sobre moradores de Santo Ângelo, cidade erguida para tratamento de hansenianos.

Na mostra internacional, destaque para o filme “Zaatari, memórias de um labirinto”, de Paschoal Samora, de Sam Polard, com memórias sobre a guerra da Síria; “Sammy Davis Jr: eu tenho que ser eu”, que conta a história do cantor; e “Canções em Pequim”, de Milena de Moura Barba, que traz a relação de 14 moradores de Pequim com músicas que marcaram suas vidas – inspirado no filme “As Canções”, de Eduardo Coutinho.

Mesmo com o discurso de renovação estilística, o documentário “Amarra o seu arado a uma estrela” exibido para jornalistas, após a coletiva de imprensa, era cansativo e longo, apesar de interessante. Mas a mostra não costuma decepcionar quem vai assistir. Mesmo que sua tática seja apenas ir para a sessão sem ler muito sobre o tema ou saber que filme será exibido, você costuma ser surpreendido por histórias que não veria em outro lugar. Afinal, é tudo verdade – e a realidade é insuperável.

Mais informações em: etudoverdade.com.br

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