‘Diplomacia pit-bull’ de Serra é eleitoral e seletiva
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‘Diplomacia pit-bull’ de Serra é eleitoral e seletiva

Tucano revida bolivarianos de olho em 2018, mas silencia sobre críticas de Chile e Uruguai para evitar indisposição com ‘modelo econômico’ e por medo de rachar Mercosul

em 19/05/2016 • 01h00
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José Serra busca um palanque para 2018. Sua chegada ao Ministério das Relações Exteriores (MRE) é parte desse projeto político. Ele não vai ser importar, justamente por isso, com a tradicional neutralidade diplomática do Itamaraty – sempre disposto a atuar como o ‘irmão bom’ e compreensivo da América Latina, em contraposição ao ‘irmão mau’ representado pelos Estados Unidos e sua política do porrete.

Não à toa, a estreia do tucano como ministro do Itamaraty foi marcada por notas críticas a países bolivarianos, contrários ao processo de impeachment de Dilma Rousseff. Foi uma pregação para os eleitores antibolivarianos.

Em discurso ontem (18), o ministro afirmou que priorizará acordos bilaterais, e citou Argentina, Estados Unidos, União Europeia e Japão, deixando claro que dará as costas ao demais latinos. Mesmo assim, Serra deixou de rebater críticas feitas por Chile e Uruguai ao afastamento de Dilma. Por quê? Porque entramos na era da ‘diplomacia dois pesos e duas medidas’ lastreada por um ‘espírito pit-bull’ (sem ofensa aos animais), mas que irá medir onde o Itamaraty deve botar soda cáustica nas relações regionais.

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Morder, pero no mucho

A primeira reação do Itamaraty ocorreu em 13 de maio, em nota rejeitando “enfaticamente as manifestações dos governos da Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, assim como da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América/Tratado de Comércio dos Povos (ALBA/TCP)”.

Nenhuma menção à chancelaria do Chile, que, na véspera (12), manifestou em nota oficial “preocupação pelos acontecimentos dos últimos tempos” no Brasil, apontados com potencial de gerar “incerteza em nível internacional” e regional. Os chilenos destacaram que guardavam boas relações com a “amiga Presidenta Dilma Rousseff”.

Na linguagem da democracia, o posicionamento chileno é claro: não apoiamos o impeachment no Brasil, visto como ameaça à estabilidade democrática na América do Sul. Isso está nas entrelinhas do trecho em que o Chile reafirmou “respaldo ao Estado de Direito, aos processos constitucionais e às instituições democráticas no Brasil e em cada um dos países da América do Sul, elementos indispensáveis para resguardar nossas democracias, fortalecer nossa integração regional e nossa inserção global”.

O Uruguai se manifestou em 20 de abril. O governo de Montevidéu disse que acompanhava “com preocupação os acontecimentos políticos” do Brasil. E recordou que Dilma foi “eleita legítima e democraticamente pelo povo brasileiro por meio do exercício do voto”.

Em 12 de maio, quando a presidente foi afastada pelo Senado, o chanceler Rodolfo Nin Novoa reafirmou que “politicamente o Uruguai já se expressou, já disse o que tinha que dizer”, conforme entrevista ao G1.

O Itamaraty silenciou sobre Novoa. Mas não contra o presidente da Unasul, o ex-presidente colombiano Ernesto Samper. Crítico do impeachment, Samper foi alvo de nota do dia 13, acusado de ter “preconceitos” contra o Brasil e de fazer “interpretações falsas sobre a Constituição e as leis brasileiras”.

No dia 16, foi a vez de El Salvador. O país centro-americano decidiu (em ato desmedido, é fato) romper contratos com o Brasil. Recebeu uma ameaça branda do Itamaraty, ao ser lembrado de que é “o maior beneficiário de cooperação técnica brasileira em toda a América Central”.

Diplomacia mercante

O processo de impeachment, responsável por colocar o Brasil em lugar destacado no panteão das repúblicas das bananas, parece querer levar o país também para uma diplomacia seletiva – como ocorria na ditadura civil-militar (1964-85), quando dialogávamos com os amigos de Washington.

É este o viés em relação ao Chile. Serra não pode revidar ao país símbolo do capitalismo na América Latina. Caso contrário, sinalizaria ao mercado que o Itamaraty está disposto a deixar o fígado falar acima de suas vontades. Deve, portanto, engolir a seco a crítica do Palácio La Moneda (sede do governo chileno). O mesmo vale para Bolívia, Equador e Venezuela, economias contestadas pelo mercado.

O Uruguai será o próximo a comandar o Mercosul, assumindo a presidência pro-tempore do bloco no segundo semestre. Se indispor com Montevidéu agora seria rachar o bloco entre Argentina, Brasil e Paraguai. Isso poderia azedar as negociações do bloco com União Europeia, cujo acordo comercial bilateral tem chances reais de acontecer.

Para piorar, no começo de 2017, a Venezuela assume a presidência do Mercosul e, numa eventual divisão com apoio do Uruguai, o acordo com a UE poderia ficar longe do horizonte. Nada bom para os planos de um ministro-candidato, cioso por contratos comerciais para se mostrar mais eficiente que a diplomacia petista.

A diplomacia mercante de Serra tende a seguir batendo no bolivarianismo e seus associados africanos. E, ao que tudo indica, para lhe dar fôlego político até 2018.

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