Como os candidatos pretendem lidar com a Venezuela?
Análise

Como os candidatos pretendem lidar com a Venezuela?

Crise no país vizinho e migração para o Brasil é um dos temas em pauta nessa eleição

em 16/08/2018 • 11h45
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As posturas dos candidatos à presidência brasileira, que será decidida em outubro, variam entre extremos quando o assunto é a crise da Venezuela. Em um está Jair Bolsonaro (PSL), que já afirmou diversas vezes que defende a destituição de Nicolás Maduro do cargo. No outro extremo está Luís Lula da Silva (PT): amigo pessoal do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, um dos pilares internacionais de sustentação de Maduro quando ele assumiu o cargo, em 2013, e entusiasta da proposta bolivariana, o petista ainda é o nome principal do único partido brasileiro que, publicamente, se coloca ao lado do governo vizinho.

Em dezembro, Bolsonaro comemorou a expulsão do embaixador venezuelano de Brasília e aproveitou para pedir apoio ao estado de Roraima, que à época já recebia milhares de migrantes venezuelanos. “A Venezuela tem petróleo, tem muita coisa que, se tirar da ditatura do Maduro, tem como a economia alavancar e, assim, a democracia e a liberdade voltarem”, disse em entrevista a um oposicionista venezuelano em agosto passado.”Contem comigo que eu faço o que for possível para que aquele governo seja destituído”, completou.

Seu canal no Youtube publicou em janeiro um pequeno filme chamado “Venezuela e Brasil: um documentário que você não assistirá na TV” com denúncias de assassinatos por parte das autoridades policiais contra manifestantes e afirmando a presença de “grupos terroristas” trazidos pelo governo, como o basco ETA e o libanês Hezbollah. O primeiro, cabe lembrar, encerrou suas atividades políticas na Europa em maio, enquanto o segundo disputou as últimas eleições libanesas no mesmo mês.

Já Lula afirmou que o Brasil não pode interferir nos assuntos do país vizinho. “O problema da Venezuela é da Venezuela”, afirmou à AFP em março. “Os Estados Unidos não têm que ficar ameaçando a Venezuela, o Brasil não tem que ficar ameaçando a Venezuela. Com paz já é difícil a gente se desenvolver neste continente, com guerra será muito mais difícil”, completou.

Na mesma entrevista ele contou, emocionado, que Chávez era uma “pessoa extraordinária”, mas tinha um pensamento “militarizado”. “Eu dizia: ‘Chávez, você não pode ser voluntarista, não tem que tratar a Venezuela como se ela fosse tua”. O próprio Maduro expressou essa relação de proximidade em abril, quando Lula foi preso. “As elites oligárquicas neofascistas do Brasil desataram uma perseguição criminal contra Lula. Da Venezuela, expressamos toda nossa solidariedade. Os povos do mundo dizem: ‘Lula livre!’”, afirmou em seu programa semanal de TV.

Os demais pré-candidatos se situam entre os dois extremos: Marina Silva (Rede) tem uma compreensão mais branda da atuação do governo brasileiro com a Venezuela, apostando em uma mediação diplomática na região, mas também toma um lado no conflito: considera que Nicolás Maduro fraudou as eleições presidenciais de maio, quando venceu Henri Falcón por 67,7% dos votos contra 21,2%. De acordo com o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), cerca de 30% dos eleitores foram às urnas pelo país.

“A democracia na Venezuela já foi totalmente comprometida. Esta foi uma eleição totalmente viciada e antidemocrática, altamente controlada com a presença do exército, das milícias. A oposição está presa ou teve que ir embora”, vociferou em entrevista ao programa Canal Livre, da Band.

Questionada sobre um possível conjunto de sanções ao país em um eventual governo, Marina afirmou que tentaria mediar o conflito de forma diplomática, mas que não reconheceria a eleição que manteve Maduro no cargo. “Quem paga sanções é o povo, que já está sem remédios, sem comida, sem trabalho. Acho que a postura de não reconhecer as eleições já é uma forma política de pressionar o governo Maduro”, explicou.

Ciro Gomes (PDT) também costuma criticar a atuação de Maduro à frente da Venezuela, mas acredita que o Brasil precisa ter uma postura imparcial na mediação do conflito entre situação e oposição. “O papel natural do Brasil, para o qual não temos substituto, é de mediar o conflito entre uma oposição fascista, neonazista, entreguista, vendendo a pátria, que é a maior parte da oposição ao Maduro, e um chavismo que não se sustenta mais a partir da exaustão de mecanismos de cíclicos apelos populares que não conseguem romper o cerco de isolamento imposto pelos americanos e que provoca um desabastecimento muito grave”, explicou em sua sabatina no Roda Viva, programa da TV Cultura, em junho.

Ele não deixa, no entanto, de condenar a postura do PT com relação à Venezuela quando o partido estava no poder. “Eu não sou do PT, que alisa o Maduro, mas eu não posso deixar de dizer, como futuro presidente do país, que nosso papel é de desarmar a bomba”, completou uma semana depois, em entrevista à rádio paulistana Jovem Pan.

O candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, enfim, não apresentou propostas claras sobre o que fará a respeito da Venezuela caso seja eleito. Em 2014, como governador de São Paulo, ele recebeu Maria Colina Machado, já deputada da oposição no parlamento venezuelano, no Palácio dos Bandeirantes. Apesar de não ter criticado diretamente o governo do país, também já dirigido por Maduro, o encontro deixou claro qual era a postura do político a respeito da Venezuela. “Não existe democracia sem oposição e o respeito aos direitos humanos”, cutucou.

Um ano depois, Alckmin recebeu as esposas de Leopoldo López e Antonio Ledezma, Lilian Tintori e Mitzy Capriles, que estava presos na Venezuela acusados de incitar o caos no país. Foi quando se manifestou de forma mais direta sobre o país vizinho. “No Mercosul, do qual a Venezuela faz parte, há uma cláusula sobre o compromisso e o exercício da democracia. A injustiça que se comete a uma pessoa é uma ameaça a toda a sociedade”, postou em seu perfil no Facebook.

Em 2016 a cena de dois anos antes se repetiu: Alckmin recebeu a Comissão de Relações Exteriores da Assembleia Nacional da Venezuela no palácio, formada por parlamentares da oposição. Ana Carolina Conde, uma das deputadas da comitiva, disse que o governador era “solidário” com a questão venezuelana, mas ele tentou não se envolver diretamente no conflito. “Os opositores procuram meios para fortalecer a democracia e reivindicam que presos políticos sejam anistiados. Nós os apoiamos nesta causa e vamos colaborar dialogando com nossas lideranças no Congresso”, disse.

Desde que se tornou pré-candidato, porém, Alckmin passou a ser mais incisivo sobre o assunto, mas mantendo sempre críticas indiretas: em janeiro, por exemplo, em referência ao processo judicial contra Lula, ele afirmou que “o caminho do populismo é irresponsável e leva à [situação da] Venezuela”. No mês passado, reforçou o mesmo ponto de vista durante um encontro com empresários no Rio de Janeiro: “Uma vitória do populismo nas eleições pode resultar num Brasil ‘venezuelano’”, previu.

Já a postura do atual governo brasileiro com relação à Venezuela mudou desde que Michel Temer (MDB) assumiu o Executivo, em 2016. Em dezembro daquele ano, o então ministro das Relações Exteriores, José Serra, articulou com seus homônimos vizinhos a suspensão do país vizinho do Mercosul pelo não cumprimento de acordos exigidos em setembro, quando o bloco também havia impedido que os venezuelanos assumissem sua presidência rotativa.

Como é a relação com o atual governo. Em setembro, quando Temer assumiu o cargo em definitivo, Serra foi a público criticar o governo venezuelano depois que Caracas congelou as relações diplomáticas com o Brasil por causa da saída de Dilma Rousseff (PT) da presidência. À época, o Equador, a Bolívia e a Nicarágua também haviam convocado seus embaixadores para consultas, mas o chanceler optou por atacar o país caribenho em uma nota especial. “O governo venezuelano não tem nenhuma moral para falar em democracia, uma vez que eles não adotam um regime democrático”, vociferou.

Em dezembro do ano passado, no auge da crise diplomática entre os dois países e em meio a protestos violentos em Caracas, a Venezuela expulsou o embaixador brasileiro, Ruy Pereira, do país, e recebeu uma carta do Itamaraty respondendo com a mesma moeda: a saída obrigatória do único alto funcionário venezuelano ainda trabalhando em Brasília: o encarregado de negócios Gerardo Maldonado. A Venezuela não tinha um embaixador no Brasil desde o impeachment de Dilma.

No final de junho, o Itamaraty emitiu uma nota pública pedindo “moderação” e “respeito aos direitos” da oposição depois que a deputada Maria Corina Machado, ex-candidata à presidência do país vizinho, foi cassada acusada de fazer parte de um grupo paramilitar que tentou assassinar Nicolás Maduro. Machado foi a autora de uma denúncia feita na Corte Penal Internacional em 2017 contra o presidente venezuelano, acusando-o de crimes de tortura e segregação. Na América do Sul, a cassação da parlamentar não foi bem recebida pelos países vizinhos.

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