‘Como entender vitória de Temer no Congresso?’
Análise

‘Como entender vitória de Temer no Congresso?’

Brasilianista James Green analisa decisão dos deputados de rejeitar denúncia de corrupção contra presidente diante de tantas provas e afirma que votação fortalece PSDB

em 03/08/2017 • 11h10
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Com 263 votos a favor e 227 contra, o presidente Michel Temer conseguiu barrar na Câmara dos Deputados a denúncia de corrupção passiva feita pela Procuradoria-Geral da República. Em entrevista exclusiva à Calle2, James N. Green, professor de história da América Latina critica a votação de ontem no Congresso Nacional. “Como entender isso?”, questiona, destacando “que as gravações da JBS parecem ter sido bem claras sobre o fato de que ele estava envolvido em corrupção e em tráfico de influência”.

Green, que teve a responsabilidade de receber o bastão da cátedra da Universidade de Brown de ninguém menos do que Thomas Skidmore (1932-2016) um dos brasilianistas mais renomados da história, analisa o atual panorama político brasileiro e afirma que as eleições de 2018 não resolverão a crise política.

'Neste momento, não há uma figura de liderança ou um partido político capaz de empurrar o Brasil para fora da crise política, e isso não será resolvido em 2018 com as eleições presidenciais.'

O pesquisador avalia a instabilidade do governo brasileiro, as acusações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alerta sobre a necessidade de uma reforma política profunda para combater a corrupção.

Pesquisador do Instituto para Estudos Internacionais Watson e diretor da Iniciativa Brown-Brazil da Universidade de Brown (em Rhode Island), Green também é docente visitante da Universidade Hebraica, em Jerusalém.

Ele diz que o enfraquecimento do Partido dos Trabalhadores e da esquerda coloca em xeque os programas sociais implementados pelos últimos governos. O especialista também entende que uma virtual condenação de Lula em segunda instância pode empurrar a esquerda a um processo de autocrítica que dure de 8 a 12 anos, sem o surgimento de uma liderança popular capaz de assumir o poder.

Como o senhor analisa a instabilidade política no Brasil, com um presidente denunciado pela Procuradoria-Geral da República e com a popularidade em queda?

Existe claramente um acordo entre as principais forças políticas do PMDB e do PSDB para manter Michel Temer no poder, mesmo com as críticas da Rede Globo. Temer tem uma taxa de popularidade de 5%. Ele ainda não caiu por causa do consenso de que precisa para permanecer no poder até as eleições de 2018.

Ontem, o Congresso Nacional rejeitou a denúncia da Procuradoria-Geral da República de que Temer precisa ser investigado por corrupção passiva. Como o senhor e a comunidade internacional vêem isso?

Temer possui taxa de aprovação de 5%. Mesmo assim, o Congresso não conseguiu levantar acusações contra ele, ainda que as gravações da JBS parecem ter sido bem claras sobre o fato de que ele estava envolvido em corrupção e em tráfico de influências. Como podemos entender isso? Parece que, se o PSDB está permitindo ao PDMB permanecer no poder, apesar de toda a sua indignação com a alegada mágoa direcionada à presidente Dilma Rousseff, isso é um modo de enfraquecer as chances do partido de Temer para 2018. Isso abre as portas para os candidatos do PSDB estarem na vanguarda da corrida presidencial de 2018.

As próximas eleições presidenciais serão capazes de resolver a crise política no Brasil?

A crise política está relacionada a profundas mudanças que foram iniciadas pelos governos de Lula e de Dilma, as quais Temer tenta lentamente reverter. Em vez de atacar os programas sociais, que ainda são muito populares, ele está usando seu capital político para lançar mão de outras “reformas”, uma das principais razões para Dilma ter sido arrancada do poder. No entanto, há uma crise de legitimidade no Brasil. Mesmo os potenciais candidatos de centro-direita têm pouco apoio. Neste momento, não há uma figura de liderança ou um partido político capaz de empurrar o Brasil para fora da crise política, e isso não será resolvido em 2018 com as eleições presidenciais.

Lula foi sentenciado a 9 anos de prisão pelo juiz Sérgio Moro. Se a condenação persistir na segunda instância, ele não poderá disputar as eleições de 2018. O senhor acha que esse cenário causaria mais polarização política no Brasil e uma provável instabilidade agravada no futuro? Ou teria um efeito positivo, com a urgência do PT em encontrar novos líderes?

O PT permanecerá em crise no futuro imediato, e não existe candidato popular óbvio que atraia eleitores suficientemente, além de Lula, para que haja impacto importante nas eleições de 2018. A esquerda como um todo terá que atravessar um longo processo de autocrítica para repensar sua política e seu comportamento. É um processo que penso durará de 8 a 12 anos.

No ano passado, Aníbal-Perez, especialista em impeachment na América Latina, disse que Temer poderia tomar medidas econômicas impopulares. O Congresso aprovou o limite de gastos pelos próximos 20 anos e a reforma trabalhista, dotada de tópicos considerados inconstitucionais. Críticos do impeachment dizem que, graças à fraqueza de argumentos para afastar Dilma, abriu-se espaço para violações da Constituição. O senhor concorda?

O impeachment de Dilma desmoralizou e enfraqueceu a esquerda, e fortaleceu a direita, permitindo que ela encampasse essas “reformas” por meio do Congresso sem importante resposta popular. A crise atual da esquerda abre as portas para medidas continuadas para desmantelar o programa social do PT.

Os escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato diminuíram a credibilidade e a confiança na classe política, tanto que temos visto vitórias de executivos e empresários, como a de João Dória para a Prefeitura de São Paulo. Como o senhor analisa esse fenômeno?

Dória e outras figuras semelhantes são tão perigosas quanto Donald Trump nos Estados Unidos. Seus discursos de honestidade e de eficiência escondem o fato de que sua agenda é a implementação do programa neoliberal no Brasil.

Nós temos sentido que o sistema político no Brasil facilita a corrupção. O senhor concorda com essa tese? O senhor defende que o Brasil deveria fazer uma reforma política? Em que direção?

Eu acho que há a necessidade de um amplo debate sobre a natureza da reforma política. Não li nenhuma proposta que penso que resolverá totalmente os temas da corrupção, do clientelismo e da manipulação das eleições por forças econômicas poderosas.

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