Como a crise na Nicarágua divide governo e potências do mundo
Sociedade

Crise na Nicarágua divide governo e potências do mundo

Enquanto conta seus mortos, país centro-americano se torna objeto de debate entre líderes da revolução de 1979 e também entre EUA e Rússia

em 17/09/2018 • 12h34
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Quando jovens universitários nicaraguenses foram convocados por grupos ambientalistas para protestar contra a inércia do governo do país na contenção de um incêndio na Reserva Indio Maíz, uma das maiores zonas de conservação ambiental da América Central, no departamento de Río San Juan, ninguém imaginava que estaria por vir a crise política mais aguda dos últimos anos.

Planejada para a segunda semana de abril, a manifestação começou em frente à Universidade Centroamericana (UCA), a principal instituição universitária da Nicarágua, na capital Manágua. Os jovens queriam levar o ato até o parlamento, não muito longe dali, mas foram bloqueados pela Polícia Nacional e por membros da Juventud Sandinista, um dos braços da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), partido do presidente Daniel Ortega e de sua esposa e vice, Rosario Murillo. Os relatos indicam tensão entre todos, mas não foi registrada violência física.

Na semana seguinte ao ato, Ortega anunciou uma reforma previdenciária que reduziria as aposentadorias em 5% e, ao mesmo tempo, aumentava o imposto cobrado de patrões e empregados formais – uma das condições de um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que chamara o fundo pensionário da Nicarágua de “insustentável”. Como reação, aposentados e outros afetados pela mudança foram às ruas da cidade de León, a 80 quilômetros de Manágua, mas desta vez foram reprimidos violentamente pelo Estado. Naquele mesmo dia, imagens de mulheres e idosos feridos inundaram as redes sociais do país e viralizaram em algumas agências de notícias pelo mundo.

Foi o estopim da crise: no dia 19 de abril, uma massa liderada por estudantes universitários saíram pelas principais cidades nicaraguenses contra a repressão policial da semana anterior e exigindo a revogação da reforma previdenciária anunciada por Ortega. A polícia reagiu com disparos de armas de fogo e, além dela, houve confrontos físicos entre os manifestantes e grupos governistas, como a mesma Juventud Sandinista. Naquele dia, três pessoas morreram. Uma delas era um homem que voltava do trabalho e foi atingido em uma rua paralela ao protesto. Um jovem perdeu o olho esquerdo por causa de um tiro de arma de borracha.

De abril até o começo de agosto, a crise no país centro-americano só cresceu: quando se completaram 100 dias de conflitos entre oposicionistas, governistas e a Polícia Nacional, a Asociación Nicaragüense Pro Derechos Humanos (ANPDH) informou que 448 pessoas já haviam morrido nas ruas — de policiais a civis que não estavam nos protestos. Na semana passada, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) disse que, até o final de agosto, eram 322 mortes. O jornalista estadunidense Max Blumenthal publicou um artigo afirmando que Washington e ONGs internacionais na Nicarágua estão maquiando os dados sobre mortes usando registros de óbitos de pessoas que não estavam nos conflitos nas ruas.

Um dos principais nomes da oposição desde que a crise na Nicarágua começou é o irmão do presidente, o ex-militar Humberto Ortega, que lhe enviou uma carta pública pedindo sua renúncia do cargo. A Organização dos Estados Americanos (OEA) anunciou que Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Peru e Estados Unidos escreveram juntos um pedido que as eleições de 2021 sejam antecipadas para março do ano que vem. Em agosto, a Casa Branca emitiu um comunicado condenando a postura do governo frente aos protestos. A Human Rights Watch, da ONU, disse nesta segunda-feira (27) que a polícia e forças pró-governo detiveram, mataram e desapareceram com dezenas de pessoas “arbitrariamente”

“As pessoas já estavam insatisfeitas com o governo há muito tempo, mas a repressão policial sobre os jovens permitiu que elas se indignassem a ponto de irem às ruas”, comenta Mercedes Salgado, socióloga nicaraguense radicada em São Paulo. O jornalista uruguaio Aram Aharonian, fundador do canal venezuelano Telesur, por outro lado, escreveu que o país centro-americano é injustiçado pela cobertura dos meios de imprensa internacionais. “Ninguém fala que os ‘manifestantes pacíficos’ atacaram, queimaram, saquearam e destruíram a rádio governista Nueva Radio Ya, por exemplo”, afirmou.

Em Manágua, os estudantes oposicionistas se uniram ao redor do Movimiento 19 de Abril, referência ao dia da grande manifestação de quatro meses atrás, e passaram a organizar atos semanalmente. Em resposta, os vários ramos do FSLN também foram às ruas. “O país está rachado”, explica o professor nicaraguense Humberto Meza, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Daniel Ortega, que não concedia entrevistas a canais privados desde 2009, afirmou ao canal estadunidense Fox News que as manifestações atuais são uma reação violenta de grupos paramilitares à reforma previdenciária anunciada por ele. “São forças que respondem a organizações políticas distintas: umas estão no parlamento, como o Partido Liberal (PL) e outras se negaram a participar das eleições. Elas usam qualquer situação para atacar”, explicou.

“Nenhuma manifestação pacífica foi atacada pelas forças armadas. Os confrontos aconteceram durante a noite, quando os protestos não são pacíficos. Eles foram provocados por esses grupos paramilitares”, completou.

No último mês, a oposição passou a denunciar o governo Ortega por reprimir os protestos pacíficos com armas compradas da Rússia. Em 2015, a Nicarágua gastou cerca de US$ 200 milhões (R$ 818 milhões) em um pacote militar adquirido via Moscou e que incluía barcos e aviões para as forças armadas. Os russos também emprestaram US$ 250 milhões (R$ 1,02 bilhão) para o governo de Ortega investir em segurança no ano seguinte.

Para o vice-chanceler de Ortega e representante do país centro-americano na ONU nos anos 1980, Victor Hugo Tinoco, o atual presidente colocou armas russas nas mãos de paramilitares imaginando uma possível revolta popular. “Os fuzis e os materiais anti-distúrbios foram pensados para casos de dificuldades políticas internas. Ele sabe desde a época de Anastasio Somoza que precisava estar preparado para uma insurreição”, acredita.

O jornalista francês Fabrice Le Lous, que trabalha há uma década na Nicarágua, diz que os policiais nicaraguenses estão nas ruas com fuzis TKM e rifles Dragunov, ambos de fabricação russa.

De outro lado, o professor estadunidense Dan Kovalik, da University of Pittsburgh (EUA), que também é um estudioso da FSLN, dispara contra a cobertura da mídia estrangeira. “a oposição está usando a relação da Nicarágua com a Rússia, e inclusive a compra dos armamentos, como pretexto para pautar a cobertura da imprensa. Estão exagerando a responsabilidade do governo nicaraguense na crise”, diz ele.

Kovalik acredita que as armas russas na Nicarágua são usadas, na verdade, para combater o tráfico internacional de drogas e que, como o país não mantém relações amistosas com os Estados Unidos desde a revolução sandinista, em 1979, é natural que o Ortega procurasse se aproximar de potências como a Rússia e China. “A interação entre eles sempre foi muito positiva e, quando os nicaraguenses precisaram de ajuda, eram os russos que estavam lá”.

Para Aram Aharonian, a localização geográfica da Nicarágua — entre o Mar do Caribe e o Oceano Pacífico — tem influência decisiva sobre a política do país. “Os Estados Unidos, que seguem insistindo que a América Latina é seu jardim e que podem regá-lo ou incendiá-lo quando quiserem, hoje brigam pela hegemonia da região com outras potências, como a China e a Rússia”, comenta.

Em setembro do ano passado, durante o feriado de aniversário da revolução sandinista, o presidente justificou a aproximação com a Rússia dizendo que, em 2007, decidiu modernizar as forças armadas do país e, na ocasião, os Estados Unidos se negaram a ajudá-lo. “Foram os russos que colaboraram na renovação dos nossos equipamentos vencidos”, afirmou.

A chancelaria russa emitiu um comunicado em abril lamentando as mortes na Nicarágua e criticando “tentativas externas” de interferência nos assuntos políticos do país. Em maio, o porta-voz do Kremlin, Artyom Kozhin, reiterou que o governo russo “apoia os esforços do governo sandinista para resolver a situação no país”.

Daniel Ortega, 72 anos, está no cargo desde 2007, quando venceu sua primeira eleição presidencial. Em 2011, derrotou o empresário Fabio Gadea com 63,95% dos votos e se reelegeu para mais cinco anos que terminaram em 2016, quando, enfim, ganhou a terceira eleição em um processo criticado internacionalmente por denúncias de perseguições aos opositores e fraudes. À época, a Calle2 publicou uma reportagem contando sobre as relações entre Ortega e sua família com o Estado.

Ele também foi o primeiro dirigente da Nicarágua a se reeleger desde o período ditatorial da família Somoza, que governou o país de 1937 a 1979 e que deixou o poder em uma revolução armada (a Frente Sandinista) liderada pelo próprio Ortega e outros oito comandantes nos anos 1970 com apoio da União Soviética.‎

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