A vida louca por detrás do palhaço Bozo
Cultura

A vida louca por detrás do palhaço Bozo

Filme ‘Bingo – o rei das manhãs’ conta história de altos e baixos do ator que encenava personagem infantil da década de 1980 e destaca-se na produção nacional

em 25/08/2017 • 11h10
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O audiovisual brasileiro nunca esteve tão florido, com produções de alto valor artístico lançadas neste agosto. Bingo – O Rei das manhãs é uma dessas preciosidades.

O filme conta a história de Augusto Mendes, ator de pornochanchada que busca seu lugar sob os holofotes. O filme é baseado na vida de Arlindo Barreto, que foi o primeiro intérprete do palhaço Bozo aqui no Brasil, ícone dos anos 80. Augusto, vindo de uma família de artistas, procura encontrar a tão almejada fama, ser reconhecido pelo seu trabalho e ganhar a admiração da família, sobretudo de seu filho e sua mãe, famosa atriz de teatro.

Por acaso, Augusto se depara com um teste para ser um apresentador de um show infantil em uma grande emissora de televisão. Ele consegue o trabalho como o palhaço Bingo e vira o destaque do programa homônimo matinal. Pela sua irreverência e background artístico, inova a linguagem e o formato padronizado do programa, caindo nas graças do público.

Augusto encontra a fama mas não ganha o reconhecimento desejado, já que no contrato com a marca Bozo, a cláusula de confidencialidade era primordial. A frustração de Augusto em ter que viver no anonimato em meio ao sucesso de seu personagem o leva a um abissal caminho de autodestruição. A notoriedade crescente do personagem que interpreta, acaba por criar um certo distanciamento entre ele e o filho. Corrompido pelo próprio ego, Augusto entra em derrocada, naufragando em uma vida hedonista, regada a álcool e drogas.

O filme segue o arco típico do herói, narrando a ascensão, queda e redenção do nosso errante protagonista. O longa poderia ter dado errado por diversos fatores. A história e o atípico período histórico poderiam fazer com o que o filme pudesse ser um pouco over tal como a época.

Como cativar o público com a figura de um palhaço irreverente e extremamente obscuro? Como simpatizar com essa figura controversa, por vezes, execrável? Um personagem rico em nuances e falhas de caráter poderia dificultar a empatia do espectador perante o protagonista.

E essa é uma das singularidades do filme, e o ator Vladimir Brichta transita entre essa ambivalência de maneira magistral.

Luis Bolognesi, roteirista do filme, escreve com precisão quase cirúrgica uma história surreal que em nenhum momento perde sua verossimilhança com a ambígua realidade da vida de Arlindo. Recriar o cenário pop brasileiro da década de 1980 não é uma tarefa fácil, porém o filme entrega mais do que lhe é pedido.

Daniel Resende, editor consagrado de cinema, estreia agora como diretor, oferecendo-nos um dos melhores filmes nacionais já realizados. Resende utiliza-se de diversas linguagens narrativas e ferramentas cinematográficas, como o uso de planos sequenciais, flashbacks e cortes bruscos. A impecabilidade dos recursos, a fotografia que alterna entre cores frias e vibrantes, saturadas. Reproduz com exatidão o constante frenesi do protagonista e seu entorno. A década de 1980 é conhecida pelo seu exagero, intensidade e transgressão. Bingo/Bozo é a personificação dessa era.

A trilha sonora é um dos destaques do longa, as músicas frenéticas e cadenciais, nos transporta imediatamente para esse nostálgicos anos. Recriando a atmosfera onírica desse período.

Brichta dá vida ao homem por trás da máscara, se apropria do papel de forma leve e visceral, permeando na mesma contraposição que o personagem vivido por ele. A dualidade tragicômica de Augusto Mendes é retratada com extrema sutileza por Brichta, sua interpretação é potente e sublime.

Encontrando o equilíbrio tênue entre os polos díspares do seu personagem, Vladimir Brichta nos presenteia com uma atuação primorosa, feita com entrega e devoção ao seu personagem. Leandra Leal também está excelente como a diretora evangélica do programa, que nutre sentimentos dúbios por Augusto. O filme também conta com uma doce participação especial do saudoso Domingos Montagner, que colaborou na criação desse inabitual protagonista.

O resultado do filme se encontra nessa mesma balança, extremamente divertido, o longa também emociona. O filme equipara qualidade técnica e artística com um grande potencial comercial. Bingo – O Rei das Manhãs é um filme irreverente, audacioso e envolvente. Brichta é a alma, o corpo, e o coração desse lindo projeto. Me arrisco a dizer que esse talvez seja o melhor papel de sua carreira. Assim como o personagem principal, não me utilizo de qualquer moderação ao reiterar que Bingo é um dos melhores filmes nacionais que eu já assisti.

O resultado é catártico, sem espaço para meio-termos, Bingo – O Rei das Manhãs é apoteótico. Deslumbra e fascina. Não quero alimentar expectativas no leitor, gostos são subjetivos e se diferem, porém ressalto que é impossível assistir a esse espetáculo incólume.

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