A heroína que vive na Rua 2 da Rocinha
Sociedade

A heroína que vive na Rua 2 da Rocinha

A Calle2 conheceu uma moradora que salvou 30 crianças de um tiroteio na maior favela brasileira

em 22/09/2017 • 00h00
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Nas comunidades do Rio de Janeiro as ruas ganham números ao invés de nomes. É o improviso que dita os caminhos. Na Rocinha, que carrega o adjetivo de maior favela do mundo, é assim: as ruas são nominadas por números.

A Calle2 foi visitar Vânia Márcia Gomes da Silva, 51 anos, que mora na Rua 2, homônima da revista, e é uma das cerca de 200 mil pessoas que vivem na comunidade, segundo a UPMMR (União Pró-Melhoramentos dos Moradores da Rocinha). O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) contabilizava apenas 70 mil pessoas no Censo de 2010. Independente das divergências numéricas, Vânia não é só mais uma moradora. É uma heroína que já salvou a vida de 30 crianças num tiroteio entre policiais e traficantes.

No caminho para conhecê-la, percorro o Jardim Botânico e vou admirando uma das estátuas mais famosas do mundo, de braços abertos no alto da montanha de pedra. O cenário é de um Rio nublado com uma garoa insistente que até lembra São Paulo. Na Gávea, a riqueza fica mais aparente. Fazemos curvas morro acima. Numa das voltas, eu chego na Rocinha. Desço mais para baixo do que deveria na Rua 7. Meu coração palpita. Mas no fim, me senti mais seguro do que no centro de São Paulo.

O contraste entre as casas empilhadas e o emaranhado de fios é gritante com os casarões que nos seguiram morro acima. Um caminhão com turistas percorre as ruas do bairro.

Antes de chegar até aqui, eu liguei para Vânia, prima de um amigo, para tentar a entrevista. Eu tinha apenas um fim de semana no Rio e decidi que queria fazer a matéria naquele domingo com previsão de nuvens e garoa. Primeiro ela negou, pois seria dia de festa. Eu percebi que aquele poderia ser um caldo ainda melhor para a matéria e me convidei para a tal comemoração. Era o aniversário de 5 anos de Kauã Victor, neto de Vânia, que tinha como tema o jogo infantil de construção Minecraft.

Até chegar à laje que abriga os convidados, são sete lances de escadas. A vista inclui a Gávea, o morro Dois Irmãos, São Conrado e o mar. “Amigo do meu primo é meu amigo também”, diz, me dando as boas-vindas e emenda antes mesmo de eu falar qualquer coisa: “Vamos aproveitar o jornalista que está aqui e trazer o Lula  de volta em 2018”. Pergunto porquê, mesmo nesse cenário turbulento da política, ela ainda aposta fichas no ex-presidente. “Sempre foi essa roubalheira e não vai mudar. Tenho esperança com o Lula, pois ele é do lado dos pobres. Os outros só roubam”.

Vânia é empresária e conduz ao lado do marido, Raimundo, uma empresa de transporte escolar chamada “Tia Vânia”. Sul-mato-grossense, ela mora na Rocinha há mais de 25 anos e criou os três filhos por aqui: Renato (25), Bruna (22) e Thaísa (20). Hoje, vê os três netos crescerem na comunidade. Quando ela chegou, o lugar era bem menor do que é hoje e foi expandindo com os anos. “Sempre morei na Rua 2. Antes não tinha tanto comércio e o preconceito de viver em uma comunidade era maior. Era mais perigoso também”, acredita. O site memoriarocinha.com.br registra a história do bairro. Vânia admite que teve medo de que os filhos se envolvessem com “coisas ruins”, mas que foi explicando o que é certo e errado.

Nesse cenário de disputa constante entre traficantes e policiais, a então monitora foi buscar as crianças com o transporte escolar na hora do almoço, como faz todos os dias. Era meio dia de 24 de maio de 2006. Um carro roubado foi localizado na favela e a polícia subiu o morro para resgatá-lo. Era o início de um confronto.

Policiais na frente do ônibus, traficantes atrás. As balas metralhavam o coletivo. Foi quando Vânia percebeu que se ela e as crianças continuassem ali, morreriam. E se saíssem do ônibus também poderiam ser atingidos.

Ela não teve dúvidas: saiu do ônibus aos gritos pedindo que a troca de tiros parasse para que ela tirasse as crianças dali. Eram 30 ao todo, uma delas, sua filha caçula. Atônitos, policiais e traficantes do morro pararam por alguns minutos. Foi o tempo suficiente para entrarem num mercadinho, fecharem as portas e se jogarem no chão. Vânia saiu com o cabelo e costas cheios de cacos de vidros, que foram estilhaçados pelos tiros. Nenhuma criança ficou ferida, enquanto o ônibus ficou completamente cheio de buracos e sem vidros.

O ato de heroísmo foi reconhecido pelo Troféu Rio no “Prêmio Faz Diferença”, do jornal “O Globo”, naquele ano. Ela foi agraciada na categoria cidadania e recebeu o prêmio numa festa no hotel Copacabana Palace, ao lado da atriz Marília Pera (1943-2015), do técnico de vôlei Bernardinho, do ator Lázaro Ramos e do ex-governador Sérgio Cabral. Na festa, foram servidos caviar e champanhe. “Foi tudo muito bonito. Fiquei bem emocionada. Minha vida passou no telão, mas eu não queria ter passado pelo que passei”, diz ela, que recebeu o troféu das mãos do jornalista Ancelmo Goés.

No discurso, Vânia pediu o fim da violência nas comunidades do Rio. “A Marília Pêra estava do meu lado e disse que eu fui uma das mais aplaudidas. Todos ficaram de pé”, conta sobre a noite de 23 de março de 2007. Vânia ganhava ali projeção local. Ela foi entrevistada pela rádio e imprensa comunitária e teve de negar entrevistas para outras emissoras que não fossem a Globo. “Na época que aconteceu, eu era funcionária ainda e ficamos um mês sem trabalhar até que o ônibus fosse recuperado”, recorda.

Antes da invasão de 60 homens no  domingo (17), que trocaram tiros com a polícia, Vânia considerava que reinava a paz na comunidade. Em 2013, a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) se instalou em uma das curvas da Rua 2. “Não vejo mais ninguém armado. Ficou mais calmo e não temos registro de roubo aqui”, dizia. Ela virou empresária e atualmente tem três ônibus escolares e transporta diariamente cerca de 200 crianças para uma escola municipal em São Conrado. Com a volta dos confrontos, ela precisou suspender o trabalho durante alguns dias e foi ao Facebook pedir “paz na comunidade”.

“Estávamos andando tranquilamente por aqui. Há bailes, banco, lojas, festas na laje. No Ano Novo é melhor do que na praia. São muitos fogos”, afirma. A comunidade abriga ainda três escolas (duas públicas), creches, posto de saúde e a UPP. Em dezembro, Vânia enfeita toda a laje com bolas e luzes de Natal.

Pergunto se não tem vontade de voltar para Corumbá (MS), onde nasceu e cresceu e ela descarta a ideia. “É muito calor, não tem muito movimento, mas é mais perigoso do que aqui”, acredita. Para ser vizinho de Vânia e morar na favela mais famosa da almejada zona sul carioca é preciso pagar R$ 900 de aluguel em uma quitinete ou R$ 120 mil para comprar uma casa pequena. Na Copa de 2014, teve telão na rua. E a via ganhou um grafite ainda presente, onde se lê: “Rua 2 é mais Brasil”.

O aniversário, a casa e a rua

No aniversário de Kauã Victor, o meu guardanapo não fica sem carne e linguiça e meu copo está sempre cheio de refrigerante. Eles insistem para que eu tome cerveja, mas prefiro evitar por conta do trabalho. Os netos de Vânia brincam com arma de brinquedo, enquanto outro colega transforma um avião em arma. Na laje, estão caixa d’águas, cadeiras de plástico, geladeira, churrasqueira, freezer e balões.

Católica e flamenguista, Vânia cria um passarinho, um peixe e gosta de flores de plástico. A casa tem ar-condicionado e na calçada em frente, ela tem estacionada sua caminhonete Pajero Mitsubishi. A empresária explica que ninguém tem escritura na comunidade, nem precisa pagar IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). “Luz todo mundo paga, mas água não”.

Eu aproveito para tentar achar uma rede de Wi-Fi aberta, e encontro uma chamada “Cadê o Amarildo?”, uma referência ao desaparecimento e morte do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, no dia 14 de julho de 2013, na Rocinha. Doze policiais militares da UPP da comunidade foram condenados pelo crime.

Desço para percorrer um pouco da rua, acompanhado de Gabriel, um adolescente de 16 anos da comunidade que utiliza o serviço de transporte de Vânia e que já presenciou um tiroteio e um cara morrendo ao seu lado. Ele conta a história com a naturalidade de quem diz: “Eu vou para a escola”. Na Rua 2, estão açougue, mercado, estúdio de tatuagem, salão de cabelereiro, bares, pizzaria, sorveteria e engradados empilhados.

Vânia recomenda, sem dar muitas explicações, que eu não desça a rua depois da UPP. Ao percorrer a rua, descubro que há uma boca de fumo. Só poucos metros a separam da UPP. Gabriel diz que podemos ir e pergunta se eu tenho medo. Eu respondo que não, mas prefiro não descer a ladeira.

A quantidade de escadas que sobem e descem e de fios impressiona. Mototáxis levam os moradores por R$ 3 até embaixo do morro. As vans cobram R$ 3,80 e chegam nos bairros mais nobres da zona sul. Ao fundo duas galinhas. Vânia diz que acorda antes do galo cantar, às 5h30. Começa a buscar as crianças às 6h30 e entrega a última às 18h.

Naquele dia, o filho Renato saiu para comprar salgados para a festa e não voltava. A empresária conversava comigo e se preocupava. “É tanta coisa que acontece”. Renato, que trabalha como mototaxista, saiu sem celular. Após uma hora de aflição, ele aparece e diz que encontrou um amigo no caminho.

O sol já se pôs e resolvo ir embora antes que a noite caia. Vânia insiste para que eu fique para o “parabéns”, mas prefiro voltar com o dia ainda claro. Pego um ônibus na esquina da Rua 7 com a Rua 2. Na saída, uma pequena confusão resolvida também a gritos. Dois ônibus tentam passar por uma rua estreita. De um lado um carro estacionado, do outro uma moto. Um pequena fila de mototáxis se forma, mas após a coordenação em voz alta de um morador que assiste a cena, tudo se resolve.

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