Epecuén 6
Fotografia

A cidade argentina com um único habitante

Lago, sal, inundação e abandono: retratos das ruínas de Epecuén pelo olhar da fotógrafa Mariana Meloni

em 05/12/2017 • 09h00
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Epecuén seria uma cidade abandonada como tantas outras – cheia de ruínas, lembranças perdidas e histórias carcomidas pelo tempo – não fosse por um detalhe peculiar. Se você jogar no Google, verá que a cidade tem um único habitante: Pablo Novak, 87 anos, que se recusou a abandonar a cidade quando todos o fizeram, em 1985.

Epecuén desapareceu do mapa após ser engolida pelas águas trazidas pelas fortes chuvas  provocadas pelo fenômeno El Niño. Os cerca de 1.500 moradores foram obrigados a abandonar a cidade, antes frequentada por aproximadamente 25 mil turistas a cada temporada em busca das águas terapêuticas do lago, dez vezes mais salgado que os oceanos. Segundo o El Observador, quando a água começou a baixar, ofereceram a Novak um emprego para cuidar de uma casa no vilarejo e ele aceitou.

A solidão, que nos assola e mete medo, parece não perturbar o habitante único de Epecuén. É ali, naquela cidade largada no tempo e no espaço, onde Pablo nasceu e cresceu, que ele encontra sentido para sua vida.

“A vida dele é estar ali para contar a história da cidade. É o que o deixa feliz. Receber as pessoas e conversar”, afirma a antropóloga, fotógrafa e artista Mariana Meloni, que conheceu a cidade em fevereiro deste ano justamente pela sua paixão por lugares abandonados.

Não é a primeira vez que Mariana escolhe o tema para fotografar, como a Epecuén de Pablo. Em 2006, Mariana fez belos registros do antigo Hotel Cambridge, no centro de São Paulo antes de ser ocupada e, ano passado, fotografou a Vila Itororó, um conjunto arquitetônico bastante peculiar, também na capital paulista.

Quando Mariana descobriu no Youtube um vídeo sobre Epecuén, não teve dúvidas em se aventurar pelo interior da Argentina rumo à cidade de ruínas. Percorreu 500 quilômetros em um ônibus entre Buenos Aires e Carhué, a cidade vizinha, pedalando em seguida por uma estrada de terra até chegar a Epecuén. “O vazio é cheio. O que me pega em locais abandonados é a história, a memória. Tem também a desorganização que me interessa. Sempre achei que no caos há algo interessante”, diz.

Tudo é esbranquiçado pelo sal e o tempo vai se encarregando de oxidar o que sobrou. Entre as lembranças mais presentes de Mariana, está uma pequena estação de trem onde antigamente desembarcavam os turistas, um Matadouro e um campo com flamingos, animais preservados da região. Mesmo com o desejo de conhecer, a fotógrafa tinha medo de estar nesse espaço inóspito. “Queria saber como ia me sentir. O abandono, a solidão, as aflições do ser humano. Mas me senti em casa, em silêncio. Vejo muita beleza em locais abandonados. As pessoas acham que é a morte, mas é apenas transformação”, relata a fotógrafa.

Hoje, mesmo entre os argentinos, a história da cidade foi caindo no esquecimento e reverbera como uma espécie de mito. Restam ruínas, memórias perdidas, ferros oxidados, alguns flamingos e Pablo.

Na cidade, há um pequeno museu que conta o passado local. Muitas versões envolvem a mesma história. Alguns moradores de Carhué contaram que foi uma escolha política inundar a cidade, pois Epecuén é a última de uma cadeia de 7 lagos, e foi sacrificada a fim de escoar a água de um sistema hídrico deficiente. O governo prometeu realocar a população, mas somente uma parte dela recebeu uma nova casa na cidade vizinha, e muitos acabaram se mudando para outras cidades turísticas da Argentina para trabalhar.

As fotos de Mariana traduzem um presente que passa pela questão histórica e social e retrata as marcas do tempo. “O que me atrai é a pintura feita pela própria natureza: as camadas, as texturas e as cores são moldadas sem a intervenção humana. É a natureza que faz. Mas há um aspecto político além de estético”, afirma.

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