A Amazônia que ninguém vê (ou crê) 1
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A Amazônia que ninguém vê (ou crê)

Na selva, há personagens incríveis, como o motorista que morde o olho e o comandante filho do Boto

em 24/03/2016 • 02h53
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Amazônia, Amazônia… quantas histórias, povos, culturas, países, cidades, vilas e comunidades coexistem dentro do mundo Amazônia.

Grande parte dela está localizada no Brasil (60%), o restante se estende pelas Guianas e também alcança as cordilheiras dos Andes. Nove países compreendem esta região riquíssima de casos e personagens.

Rios e estradas interligam a floresta e seu povo. Eu, particularmente, desde criança percorri a famosa rodovia Belém-Brasília (que, curiosamente, não começa em Belém e nem termina em Brasília). Nestas viagens sempre me interessou muito a vida, as histórias e o jeito de ser dos motoristas de caminhão. Essa estrada (BR-010) foi e é uma rodovia federal muito importante de escoamento de produtos entre o Norte e o Sul do país. E os motoristas dos caminhões têm um papel fundamental para que os produtos cheguem (ou não) em seu destino.

Uma das características que me encantam em relação aos “motoras” (assim que eles se apelidam na Amazônia) são as decorações das cabines (obviamente existe um fetiche, mas este assunto não vem ao caso). Tem cabine vermelha, tem azul, com ventilador, com cortina, de veludo, com foto… é uma infinidade de opções decorativas de cabine de caminhão incrível. Durante as viagens pelas estradas fico reparando nessas cabines e seus motoristas, e como eles são feitos um para o outro!

Além da cabine, não dá para deixar de reparar nas frases de para-choques. “Não me segue porque não sou novela”. “Não é pressa, é saudade”. “Deus é fiel”… Além dos nomes das esposas e filhos que eles homenageiam. Certa vez, vi no para-choque de um caminhão o nome bem grande Kathely e ao ladinho escrito timidamente Grace.

Tive a oportunidade de conhecer esse motora, era o Doriquinho. Tinha uns 40 anos, de cabine um pouco bagunçada. Cabelo ligeiramente seboso, sempre de chapéu e óculos escuros. Seu caminhão transportava gado. Fui saber que Kathely foi sua primeira filha e a Grace “foi um gol no treino”, como ele mesmo disse.

Mas a história não acaba aí. Quando vi essa figura ele estava em um bar, na beira da BR. Chamava todos para uma aposta, dizendo assim: – Quem duvida, que eu consigo morder meu olho esquerdo?

Seus conhecidos e não conhecidos se intrigaram com a questão e decidiram comprovar. Quase todos apostaram. Na mesma hora, Doriquinho tirou os óculos, levou a mão no olho, arrancou o olho de vidro e mordeu! Uma cena um tanto inesquecível!

Todos, ficaram espantados com a surpresa em saber que o motora da vez tinha um olho de vidro. Ou seja, aquele, que atravessava o país, levando e trazendo a boiada, era cego de um olho… Pode?

Quando Doriquinho, não satisfeito, chama a atenção de todos e diz em alto e bom som: – Agora eu dobro a aposta. Quem duvida que eu consiga morder o olho direito?

Todos, rapidamente cumpriram e pagaram a aposta, pois tinham certeza que aquele caboclo não era cego.

Doriquinho, primeiro pegou o dinheiro e guardou. Enquanto isso dizia rindo: Vocês perderam, vocês perderam. Foi quando ele levou a mão na boca e a risada saiu na mão dele, ou melhor, a dentadura. Ela pegou a dentadura e mordeu o olho direito.

Essa cena foi mais inesquecível ainda. Olho de vidro, caminhão de boi, rodovia federal. Esse mix Doriquinho é um cenário muito representativo das estradas amazônicas.

Por outro lado, os cenários existentes nos rios, que também são vias de acesso na Amazônia, são menos óbvios, mais subliminar. O fato de navegarmos já nos leva a outra dimensão. Os comandantes dos barcos amazônicos (que seriam os “motoras” fluviais) trazem histórias mais lendárias, a sensação que tenho é que eles estão em busca das índias guerreiras amazonas.

Certa vez, fiz uma viagem de Carauari a Tefé. Foram quatro dias a bordo navegando nos rios Juruá e Solimões. Após dois dias e duas noites eu já tinha conversado com muitos passageiros e tinha admirado bastante a paisagem amazônica. Resolvi ir em busca da minha curiosidade maior. A vida do comandante. Conversa vai, conversa vem (afinal tínhamos bastante tempo) e chegamos no nascimento dele. Sabe o que descobri? O senhor comandante era filho do Boto!

Segundo ele, ou melhor, segundo a mãe dele, ele era uma produção, não sei nem como define isto, da mãe com o boto. E o melhor: Eu vi o RG dele. Na filiação pai estava escrito: BOTO. Não é incrível? #istoéamazonia

Um motorista tão diferente do outro, mas habitantes do mesmo mundo amazônico. Será que o boto já se encontrou com o olho de vidro? Vale investigar…

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