O dia da música latino-americana
Cultura

4 de outubro: o dia da música latino-americana

Foi em um 4 de outubro, há 100 anos, que nasceu a chilena Violeta Parra, 'mãe' da música latina -- e foi nesta mesma data, há oito anos, que morreu a 'madrinha' Mercedes Sosa

em 04/10/2017 • 03h00
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Não está nos calendários de efemérides, mas o dia 4 de outubro poderia ser considerado o ‘Dia da Música Latino-Americana’. Pachamama e os santos católicos devem ter arquitetado um plano para que nesta data a mãe e a madrinha da música da América Latina se unissem. Foi em 4 de outubro de 1917 – há um século – que nasceu Violeta Parra, a mãe da música latino-americana. E foi também em um 4 de outubro – há oito anos – que morreu Mercedes Sosa, a madrinha do cancioneiro deste continente.

A chilena Violeta Parra pode ser considerada a mãe da música da América Latina pois foi ela que, corajosamente, uniu instrumentos da cultura popular chilena de origem indígena com a temática da luta social, denunciando tanto as condições de miséria dos trabalhadores nas minas quanto os atos nada democráticos dos governantes chilenos. Percorreu o país e recolheu canções transmitidas pela tradição oral, como as cantadas nos funerais de crianças. Cantou a geografia, as festas populares e gravou suas primeiras canções em 1953. No ano seguinte, fez um recital em Varsóvia, por conta do V Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes e de lá foi para Paris, onde morou por dois anos.

Quando volta ao Chile, dá início a um intenso trabalho de recolher o folclore das diferentes regiões do Chile, em paralelo com trabalhos de tapeçaria, cerâmica, pintura e literatura, além da música. 

Essa obra, que mescla denúncia social e cultura popular, funda as bases do movimento da nova canção que nasce no Chile e se multiplica por todo o continente.

A argentina Mercedes Sosa é herdeira deste trabalho de Violeta. Sua interpretação de Gracias a La Vida é uma das versões mais emocionantes e mais tocadas no mundo. Ao lado dela, pode-se colocar, com certeza, a interpretação de Elis Regina. Ambas impressionam não só pelo poder da voz, mas pela paixão em cada nota. Mas foi graças à Mercedes Sosa, no seu exílio na Europa por conta da ditadura militar Argentina, que outras canções de Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Victor Jara e Daniel Viglietti ganharam repercussão internacional. Sosa com certeza é a intérprete latino-americana mais conhecida internacionalmente, por isso pode-se afirmar que ela é a madrinha que levou o mundo a se encantar com Duerme Negrito, Canción con Todos y Chacarera de Las Piedras.

Mercedes Sosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gal Costa em 'Volver a los 17'

Mercedes Sosa está mais presente no imaginário dos amantes da música latino-americana (não tanto quanto merecia, é verdade), mas Violeta Parra, talvez pela distância, nem sempre recebe as devidas homenagens. Por isso, é preciso falar um pouco mais de sua obra.

Violeta e a Peña de los Parra

A fundação do Peña de los Parra é um dos grandes marcos da cultura popular latino-americana. Lá, Violeta e seus filhos Isabel e Ángel fazem apresentações do que se consolidaria como o movimento da nova canção chilena que influenciaria outros artistas do continente, como conta Joan Jara, viúva de Victor Jara, no livro “Canção Inacabada: a vida e a obra de Victor Jara” (Ed. Record, 1998): “A Peña de Los Parra tinha se consolidado não só como um importante e original centro para um novo tipo de movimento musical, mas também como um ponto natural de reunião de pessoas com opiniões de esquerda. À medida que a repressão de direita caía sobre outros países latino-americanos, a Peña passou a ser um refúgio para cantores do Brasil, Uruguai e Argentina. Ali passou a ser um lugar onde os artesãos exibiam e vendiam seus trabalhos, enfim, uma exposição permanente de arte popular”.

Em 1963, em outra viagem a Paris, Violeta grava canções camponesas e revolucionárias que só seriam conhecidas dez anos depois. Estão neste álbum preciosidades como La Carta (com os famosos versos: Por suerte tengo guitarra  para llorar mi dolor, también tengo nueve hermanos fuera del que se engrilló. Los nueve son comunistas con el favor de mi Dios, sí);  Ayudame Valentina (sobre a hipocrisia religiosa que não dava atenção aos pobres); e Rodriguez y Recabarrén, típico exemplo do que fez o movimento da nova canção: contar as histórias dos grandes nomes das lutas latino-americanas.

Seu último álbum, Las últimas composiciones de Violeta Parra, de 1966, traz os clássicos Gracias a La Vida e Volver a los 17, que aqui no Brasil ganhou uma interpretação histórica com Chico Buarque, Milton Nascimento, Gal Costa e Mercedes Sosa, num programa da dupla Chico e Caetano na TV Globo, de 14 de março de 1987.

Em 1967 morre Violeta. Jovem (49 anos), cercada de dramas amorosos, mas dona de um legado que impulsionou artistas na campanha para eleger Salvador Allende em 1970. De tão forte, a ditadura chilena teve de também combater essa manifestação cultural.

De acordo com o livro de Joan Jara, os militares, além de proibir a simples menção do nome Victor, baniram todas as músicas de todos os artistas do Movimento da Nova Canção Chilena. “Se os militares fizessem uma batida em uma casa e dessem com discos de Victor, dos Parras, do Quilapayún e do Inti-Illimani, isso significava quase prisão certa. Junto com os livros, os discos eram jogados em fogueiras nas ruas, quando os militares revistavam blocos de apartamentos e casas para confiscar ‘propaganda marxista’”.

Curiosidade

Para o professor da UERJ, Emir Sader, não há nada mais próximo na América Latina que um camponês de outro camponês. Sua tese é que há mais proximidades do que diferenças na cultura popular camponesa latino-americana. E há um exercício que pode comprovar essa tese. Vejam a música La Exiliada del Sur, feita em parceria com Patrício Manns (no vídeo interpretada pelo grupo Inti Illimani) e comparem com Vide, Vida Marvada, de Rolando Boldrín. Os ritmos são diferentes, mas a temática é muito parecida, como se fossem irmãs, cada um de lado dos Andes. E há outros exemplos como esse, basta ouvir mais o cancioneiros latino-americano.

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As grandes celebrações deste 2017

2017 é o ano das efemérides latino-americanas. São 50 anos da morte de Che Guevara, 100 anos do nascimento de Violeta Parra (e 50 anos de sua morte), 50 anos da publicação de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, oito anos da morte de Mercedes Sosa. Se 4 de outubro não se tornar o ‘Dia Oficial da Música da América Latina’, pode-se pedir que os anos de final 7 sejam considerados os anos latino-americanos.

Para saber mais

Há um filme de Andrés Wood (o mesmo diretor de Machuca), Violeta foi ao Céu (Violeta se fue a los Cielos), vencedor do Festival de Sundance de 2012. É uma obra sensível, bem dirigida e interpretada. Peca um pouco em dar maior ênfase aos dramas amorosos vividos como o músico de origem suíça Gilberte Favre. Mas, mesmo assim, pode-se ter dimensão do quanto Violeta Parra foi batalhadora pela cultura latino-americana.

Museu Violeta Parrahttp://museovioletaparra.cl

Violeta Parra 100 anoshttp://www.violetaparra100.cl

Cancioneiro de Violeta Parrahttp://www.cancioneros.com/aa/232/0/canciones-de-violeta-parra

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