O que o Equador pode esperar de Lenín Moreno
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O que o Equador pode esperar de Lenín Moreno

Eleito por margem estreita de votos, novo presidente equatoriano assume o governo de um país que também está polarizado e sob acusações de fraude eleitoral

em 25/04/2017 • 09h25
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Em um país cujo governo assumiu uma retórica violenta contra os Estados Unidos nos últimos dez anos, não é difícil entender porque Lenín Moreno, eleito com 51,15% dos votos (exatos 226.596 a mais que o seu concorrente, o empresário Guillermo Lasso) para governar o Equador, jamais mencionou o ex-presidente americano Franklin Roosevelt (1882-1945) em seus discursos de campanha.

Desde que a sua vitória foi confirmada, no começo de abril, a imprensa equatoriana cansou de compará-lo ao homem que governou os EUA entre 1933 e 1945, atravessando toda a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) escondendo as consequências de uma poliomielite que o tinha deixado sem o movimento das pernas.

O jornal El Telegrafo, uma das maiores publicações do Equador, afirmou que ele será o segundo presidente do mundo com alguma deficiência física, depois de Roosevelt. O The New York Times, jornal mais importante dos Estados Unidos, foi mais longe: publicou um artigo dizendo que o país sul-americano foi o primeiro da história do mundo a eleger um indivíduo sentado em uma cadeira de rodas. Lenín, porém, sempre se manteve distante das semelhanças com  Roosevelt e do seu possível fato histórico.

“Para mim essa foi uma experiência nova que agradeço a Deus. Pude passar a ver as pessoas de baixo”, disse ele, em 2012, quando era vice-presidente.

Lenín Moreno ficou sem o movimento de suas duas pernas em 1998. Estava esperando pela sua mulher, Rocio González, que comprava pães em uma padaria, quando dois assaltantes o acertaram à queima-roupa por não conseguirem levar os pertences desejados.

Um dos tiros destruiu a sua coluna vertebral. À época, Moreno era secretário-executivo da Câmara de Turismo do governo da província de Quito. Ele passaria os quatro anos seguintes recebendo cuidados médicos e psicológicos sem sair da cama. Quando saiu, foi para passar o resto da vida em uma cadeira de rodas.

“Meu pai era socialista, leitor de Lênin, e minha mãe, por ser liberal, amava Voltaire. Daí veio meu batismo”, contou Lenín Boltaire Moreno Garcés, 64 anos, durante a campanha. Por um erro do cartório, o segundo nome foi registrado errado.

Filho de dois professores universitários da classe média de Quito, que se dedicaram a construir escolas em regiões inóspitas da Amazônia equatoriana, o agora presidente nasceu em um vilarejo isolado na fronteira com o Peru.

Passou a infância na capital, onde estudou em tradicionais colégios de classe média e começou a vida universitária no curso de Medicina da Universidad Central, uma das mais antigas do país. Mudou cedo para Psicologia, de onde foi expulso após se revoltar contra a reitoria. Apesar da punição, foi aceito pela Universidade no curso de Administração, onde se formou em meados dos anos 1990. De acordo com a revista equatoriana Gkillcity, o seu diploma só foi registrado apenas dois dias antes do fim do prazo para a inscrição nas eleições presidenciais desse ano.

A história posterior à presidência é mais complexa: companheiro de Rafael Correa desde a primeira eleição presidencial, em 2006, alguns setores da política equatoriana sugerem que a escolha para a chapa não foi ideológica, mas estratégica. Em 2008, o Wikileaks publicou um documento da diplomacia dos EUA em Quito sugerindo que o Alianza País, partido de Correa e Moreno, sempre teve em mente selecionar um “defensor dos deficientes”. Desde o início dos anos 2000, o Equador é um dos países mais mobilizados no cenário internacional no trabalho com pessoas nessa situação.

“Se sabia muito pouco de Moreno antes de ser chamado para a vice-presidência. Até hoje, quando vamos escrever textos sobre ele, é difícil encontrar informações sobre esse período. Sabe-se apenas que ele era empresário do setor de turismo. Nada mais”, comenta a professora e jornalista María Sol Borja, que escreveu um grande perfil do novo presidente na revista Gkillcity.

Em 2012, Moreno concorreu ao Prêmio Nobel da Paz – vencido pela União Europeia. Quando deixou a vice-presidência, em maio de 2013, já havia sido indicado pelo então secretário-geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-moon, para ser enviado especial da entidade para pessoas com deficiência. O posto seria exercido em Genebra, na Suíça. O novo emprego e a participação na lista do Instituto Nobel foram dois púlpitos imensos para Moreno perante o público interno. “Ele trabalhou nessa época para fortalecer sua imagem perante os equatorianos. É claro que ele sabia que não tinha chance de ganhar o Nobel, mas a nomeação foi estrategicamente utilizada para dizer que ele era um defensor dos deficientes”, diz Sol Borja.

No ano passado, quando seu nome já aparecia nas pesquisas de intenção de voto, surgiram também as primeiras denúncias sobre o modo de vida de Moreno na Europa: em junho, o coordenador das Nações Unidas no Equador disse que a entidade não custeava o trabalho dele em Genebra. O governo equatoriano também negou qualquer pagamento, já que não se tratava de uma representação diplomática.

Nas redes sociais, começaram a circular textos e fotos em que o ex-vice-presidente era acusado de viver em um “palácio” e de ir ao escritório em um Rolls-Royce diariamente. O assunto ganhou dimensões maiores do que o próprio staff  imaginava, e ele precisou vir a público explicar que vivia em um apartamento pequeno e que gastou “pouco mais de US$ 1 milhão” nos três anos que viveu na Suíça.

Em agosto, uma reportagem do site Mil Hojas gerou talvez a maior complicação para a campanha de Lenín, ao exibir documentos do Ministério das Finanças do Equador que comprovavam que era mesmo o Estado quem bancava suas despesas em Genebra. “Como ele não falou com a imprensa durante a campanha, a denúncia jamais foi respondida. Caiu no esquecimento”, afirma Sol Borja.

Tanto a imprensa como os acadêmicos acreditam que o governo Lenín Moreno será mais difícil do que o último mandato de Rafael Correa, já marcado por imensos protestos populares, escândalos de corrupção, denúncias dos meios de comunicação internacional, crise econômica e brigas políticas internas.

O presidente assumirá, no dia 24 de maio, um país que, assim como a maioria dos vizinhos sul-americanos, está profundamente dividido entre seus eleitores e seus opositores. Há acusações de fraudes nas urnas.

No domingo do segundo turno, 2 de abril, três institutos de pesquisa noticiaram que Lasso havia sido eleito por uma margem pequena de votos. Houve comemorações tímidas nas ruas, até que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) anunciou, na terça-feira, 4, que o vitorioso era Moreno. Naquele mesmo dia, milhares de pessoas foram às ruas das principais cidades ‒ Quito e Guayaquil ‒ pedir a recontagem dos votos. Seu rival na corrida presidencial fez coro e disse que, se Moreno assumir o cargo, será ilegítimo. O CNE recontou uma parte dos votos e confirmou a vitória de Moreno.

Para Renata Peixoto, professora de Relações Internacionais da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), a contestação da oposição no Equador é um reflexo da crise democrática que a região atravessa.

“Está acontecendo um acirramento das posições na América Latina, um esvaziamento do centro em que a forças moderadas desaparecem. Nessas situações, é muito difícil criar, estabelecer e manter os pactos entre os diferentes setores da sociedade”, diz ela. “Contestar o resultado das eleições é pôr em xeque as regras democráticas. A gente já viu isso no Brasil, com a eleição de Dilma Rousseff, vê agora com Nicolás Maduro, na Venezuela, e com Moreno, no Equador”, completa.

Para a jornalista Sol Borja, da revista Gkillcity, a postura do CNE durante as eleições e na divulgação dos resultados é duvidosa, o que motiva a contestação por parte da oposição. “A imagem do CNE está desgastada, porque o trabalho deles foi muito questionado. Muitos atos proibidos pela lei foram permitidos durante a campanha. Moreno terá dificuldades para governar, num primeiro momento, por causa do CNE”, avalia.

“Quando fui ao Equador, em 2012, notei que havia um respaldo grande ao projeto político do Rafael Correa, mas uma resistência geral ao caráter do presidente. O perfil dele era visto como intempestivo, voluntarioso. Percebi uma resistência das pessoas à capacidade de liderança dele. Talvez a vitória de Moreno seja justamente o respaldo ao seu projeto de governo e às características pessoais do presidente, agora mais conciliador e menos temperamental”, conclui Renata Peixoto, da Unila.

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