O dia em que fui chamado de 'esquerdopata'
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O dia em que fui chamado de ‘esquerdopata’

Nova direita mimetiza discurso de Lula do 'nós contra eles' para travar uma guerra semântica vazia contra 'oponente', entendido como um não-ser político

em 07/04/2017 • 15h58
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Como todo jornalista, guardo comigo valores liberais. E neste dia do jornalista é importante lembrar que é missão jornalística a defesa da liberdade de expressão, da igualdade de todos perante a lei, do direito à diversidade e à democracia como modelo de controle do Estado pelo e para o cidadão. É, portanto, dever da imprensa olhar criticamente o mundo a sua volta e, do alto da sua liberdade, apontar o rei com a coragem necessária para dizer que ele está nu.

Estes são valores que o liberalismo herdou ao mundo a partir do século 18, com a Revolução Francesa. A independência dos Estados Unidos colocou esses valores na ordem prática do mundo político e, naturalmente, do jornalismo.

Isso significa que eu seja um liberal nos trópicos? Não. A cartilha liberal tem diversas falhas (como toda ideologia) e a mais cruel é esta: cada homem deve se virar sozinho, sem qualquer suporte do Estado.

Numa economia capitalista periférica (mas não só, haja vista como a crise de 2008 reduziu a pó o modelo EUA de viver), tal preceito liberal gera desigualdades cruéis ao relegar à meritocracia do sistema capitalista o poder de equilíbrio no campo econômico.

Portanto, na contramão do discurso crescente no Brasil de que é preciso reduzir o Estado a nada, acredito ser necessária a mão estatal para termos uma distribuição de renda mais equilibrada e a oferta de serviços públicos básicos (saúde e educação, especialmente).

Cabe ao Estado também inserir o cidadão no jogo econômico como mão de obra qualificada. Além de controlar em alguma medida o mercado financeiro para evitar os efeitos das especulações danosas como vimos em 2008.

E por que me defendo? Por motivo simples: fui chamado de “esquerdopata” justamente por defender tais valores! Por defender o princípio de que todos somos iguais e livres, o que inclui criminalizar a homofobia.

Foi a primeira vez em que fui classificado como portador de “esquerdopatia”. Achei curioso. O sufixo “patia” significa, no jargão médico, moribundo, doente, portador de alguma moléstia. É termo carregado de significação negativa.

Os que arremessam contra os outros querem desqualificar o interlocutor com o qual discorda. Mais do que isso, querem dizer que seu “oponente” é (literalmente) um não-ser político, alguém cujas opiniões não merecem ser consideradas.

Mas o que o pessoal que arremessa a “esquerdopatia” na cara dos outros esquecem que estão se apoiando num jargão similar ao do “fascista”, empregado por aqueles que querem desqualificar.

É uma guerra semântica. É uma guerra vazia. O ex-presidente Lula sempre usou (antes e depois da Lava Jato) o substantivo “elite” para se defender de quem discordava dele. Mais do que isso:

Lula, que “acha” que tem renda mensal de R$ 50 mil (isso não é ser “elite”?), construiu assim o discurso do “nós contra eles”, forjando na linguagem popular a ideia marxista de luta de classes.

Agora (e isso é hilário), os que berram nas redes sociais, nos bares e nas avenidas paulistas pela prisão de Lula não se dão conta de que estão reproduzindo às avessas o discurso lulista! É a síndrome de Estocolmo dos nossos bicudos tempos.

Vá lá, a coerência nunca foi uma prática comum no Brasil, sabemos. Tem gente que critica a corrupção do PT, mas se cala ante denúncias de corrupção de outros partidos com os quais simpatiza. É o silêncio da maioria justificando o jeitinho brasileiro. Afinal, o rabo dos outros é mais sujo que o nosso.

A guerra semântica travada nestas terras tomadas dos tupiniquins e tupinambás (e muitos outros povos) vai aos poucos corroendo o bom senso. De um lado, a esquerda sem propostas para nos tirar da crise econômica. Ela abriu mão de fazer política ao se esconder sob o escudo do governo PT, deixando de lado sua identidade e a elaboração de algum plano coerente para disputar no campo político-econômico o apoio de alguma maioria.

Nem toda esquerda é petista, mas a esquerda esqueceu de avisar a população disso e, assim, abriu o flanco para a ascensão da direita.

Noutro lado, a nova direita brasileira se define como baluarte da moralidade e da ética enquanto adota expediente agressivo. Na falta de argumento, opta por classificar como doente quem questiona sua falta de tato intelectual para discutir o básico.

Enquanto durar nossa guerra de palavras (com fé de que se restrinja a isso), o pessoal da cobertura econômica vai rir tanto dos “esquerdopatas” quanto dos “fascistas”. Esse povo não está nem aí para o que acontece no subsolo do edifício econômico que controlam.

Estão dizendo em alto e bom silêncio que não lhes importa se existem 13,5 milhões de desempregados. Muito menos se preocupam se vizinhos estão quase indo às vias de fato para defender Jair Bolsonaro ou Jean Wyllys.

O que querem os donos do poder real neste trópico enfastiado é o laissezfaire amplo, geral e irrestrito: reforma trabalhista e da previdência, terceirização geral, acesso às profundezas do pré-sal, extinção de reservas indígenas para avanço do agronegócio. Mas, claro, eu sou só um esquerdopata e você não precisa me levar em consideração.

FOTO (SAM LUDD): Ato em São Paulo, realizado no dia 15 de março, contra a reforma da Previdência

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